Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois

Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois
Mais informações: www.cm-sintra.pt

30.12.08

Continua

O amor não é fácil
E a única bagagem permitida…
É tudo o que não consegues deixar para trás

E se a escuridão nos separar
E se a luz do dia faz pressentir um caminho longo
E se o teu coração de vidro rachar
E por um segundo voltares a trás
Oh não, sê forte

Continua, continua
O que tens ninguém pode roubar
Não podem nem sequer sentir
Continua, continua
Estás a salvo esta noite

Fazes a mala para um lugar onde nenhum de nós esteve
Um lugar em que é preciso acreditar para ser visto
Podias ter voado para longe
Um pássaro canoro numa gaiola aberta
Que apenas voará, apenas voará por liberdade

continua, continua
o que tens ninguém pode negar
não se pode vender ou comprar
continua, continua
estás a salvo esta noite

Sei que dói
E o teu coração se despedaça
E que não aguentas tudo
Continua, continua

Lar… é difícil saber o que é quando nunca o tiveste
Lar… não sei dizer onde é mas é para lá que vou
É onde a dor está

deixa para trás
Tens de deixar para trás
Tudo o que desejas
Tudo o que fazes
Tudo o que constróis
Tudo o que partes
Tudo o que medes
Tudo o que sentes
Tudo isto podes deixar para trás
Tudo o que pensas
Tudo o que sabes
Tudo o que dizes
Tudo o que imaginas
Tudo o que planeias
Walk On, U2

29.12.08

Já passava da meia-noite quando a campainha tocou inesperadamente. A primeira sensação foi de pânico: que teria acontecido?

28.12.08

workshop semântico #33

Workshop Semântico
Gino Rossi enveredou por uma vida de crime ainda em tenra idade. Na verdade, não teve muito por onde escolher. A única opção resumia-se a perpetrar ou a sofrer. Nenhuma das hipóteses era apelativa, mas a primeira parecia sem dúvida menos prejudicial à saúde. Não que nas ruas velhas e suja da cidade se obtivesse uma educação formal, mas a sabedoria reside um pouco em todo o lado e não lhe era alheia a lição de que era mais importante manter os seus inimigos próximos, mas do que os eventuais amigos. Que o valor da amizade nas velhas ruas tinha apenas o valor necessário à sobrevivência quotidiana.
O crime entrou assim na sua vida sem o auxílio de qualquer prédica de algum pequeno pascácio de aspecto patibular.

27.12.08

25.12.08

christmas highlights

“Tia tens de me ajudar a pôr os corninhos”
= uma rena Rodolfo

“ah, era mesmo isto que eu queria.”
= uma nota de 10€

“Vai lá ao computador pôr o CD.”
= 6 audições do Rancho Folclórico de Cernache do Bonjardim

23.12.08

SWAT Agualva?

Esta noite, nas traseiras do prédio uma carrinha da PSP e seis agentes armados e pelo menos mais dois à paisana.

21.12.08

Palavras #128 a 130

Prédica - do Lat. Praedicare. s. f., acto de pregar; sermão; pregação; prática.

Patibular - adj. 2 gén., relativo a patíbulo; com aspecto de criminoso.

Pascácio - do Gr. Pascasios. s. m., idiota; lorpa; indivíduo simplório; pacóvio.

20.12.08

Autor Desconhecido.

À medida que a sociedade muda, temos de mudar com ela, mas tal não significa demolir instituições preciosas e apreciadas como a biblioteca pública.[1]

Capturada após um ataque aéreo durante a II Guerra Mundial, a imagem poderia estar na origem de um dos vários quadros surrealistas de Magritte. Estes homens impecavelmente vestidos e com os seus chapéus não pairam no ar nem são fruto de efeitos de óptica, mas parecem tão fora de contexto quanto as personagens deste pintor.
Não será por certo usual que em períodos caóticos, como são certamente os de guerra, se tenha a biblioteca ou a leitura como prioridade. No entanto, que outro local poderá encerrar em si uma promessa de ordem nesse imenso caos? Não serão as estantes devidamente organizadas de uma biblioteca a prova de que todo o caos poderá encontrar uma ordem justificada. Não será a promessa do conhecimento a maior arma contra a ignorância e caos das sociedades. Talvez seja essa promessa que leve os homens de bem a procurar nestes espaços, o repositório da memória dos homens, as ferramentas para que o mal não triunfe.

[1] USHERWOOD, Bob, A Biblioteca Pública como Conhecimento Público, Editorial Caminho, Lisboa, 1999. (pág. 15)

18.12.08

Inventário, José Saramago

De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça da camurça com que pisas.

De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.

A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.

De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.

16.12.08

Quando o amor chegar à cidade

Era marinheiro, andava perdido no mar
Sob as ondas

Antes do amor me salvar
Era um lutador, podia acender um rastilho
Agora sou acusado das coisas que disse


O amor chega à cidade e vou apanhar esse comboio

Quando o amor chegar à cidade vou apanhar essa chama

Talvez tenha errado ao decepcionar-te

Mas fiz o que fiz antes do amor chegar à cidade

Costumava fazer amor sob o ocaso vermelho
Fazia promessas que logo esquecia
Ela era alva como o laço do vestido de noiva
Mas deixei-a à espera antes do amor chegar à cidade

Corri para uma espelunca quando ouvi o grito da guitarra
As notas eram tristes, eu vivia num sonho
Enquanto a música tocava vi a minha vida girar
Esse foi o dia em que o amor chegou à cidade

estava lá quando cruxificaram o senhor
Segurei a bainha quando o soldado desembainhou a espada
Atirei o dado quando o perfuraram
Mas vi o amor conquistar a grande divida

When Love Comes To Town, U2 & B.B. King

15.12.08

A Biblioteca, U. Eco

A Biblioteca é um texto escrito originalmente para uma conferência proferida por Eco em 1981, tendo sido editado nesse mesmo ano.
Impregnado de um grande humor, o texto fala dessa grande aspiração que é a constituição de uma biblioteca à imagem do homem. Ou seja, uma biblioteca à medida das suas (várias) necessidades. Por isso mesmo, elabora uma lista de 19 pontos pelos quais se rege uma má biblioteca, com o objectivo de pela negativa se chegar a um modelo o mais próximo possível da biblioteca ideal.
Dos vários pontos, mais ou menos perceptíveis ao comum leitor/utilizador de biblioteca, salienta-se:
- “a biblioteca deve desencorajar a leitura cruzada de vários livros, porque provoca estrabismo”;
- “ o bibliotecário deve considerar o leitor como inimigo, um vadio (senão estaria a trabalhar), um ladrão potencial”.
É um texto de fácil compreensão e em que qualquer utilizador de biblioteca se revê a dado momento.

14.12.08

A Biblioteca de Babel, J. L. Borges

Em 1941, Borges escreveu um pequeno texto intitulado A Biblioteca de Babel que foi editado em 1944 no livro Ficções. Desde a sua edição, este pequeno conto tem instigado a curiosidade e o fascínio de todos quantos o lêem, desde os meros leitores, até aos profissionais que de um modo ou de outro se ligam à actividade da leitura.
Neste texto, Borges apresenta-nos um arquétipo de biblioteca, não só do ponto de vista físico, como organizacional. A sua proposta de biblioteca recorda-nos a figura geométrica do fractal, que se estende até ao infinito, através de inúmeros desdobramentos sequenciais. Assim, podemos considerar a biblioteca como uma figura natural, capaz de se desdobrar de modo a comportar qualquer crescimento e evolução do conhecimento.
Do ponto de vista organizacional, Borges coloca a tónica na figura do bibliotecário, esse mediador entre o leitor e o caos de informação. Assim, o bibliotecário é o ser que mais se aproxima de um estatuto divino, pois é o único que consegue impor qualquer ordem ou sentido ao caos primordial. É a este que cabe organizar, difundir, mas também seleccionar a informação, o que faz dele também um censor poderoso. O bibliotecário é o arqueólogo da informação, pois está nas suas mãos a possibilidade da descoberta da informação que se julga perdida, um tesouro que tanto pode revelar a pedra filosofal, como a panaceia ou quem sabe a origem do tempo.
Deste modo, a Biblioteca de Babel, resultante de vários saberes, culturas e conhecimentos, revela-se também ela um enigma. Quiçá a verdadeira caixa de Pandora.

13.12.08

Referências Culturais à Biblioteca

Algumas sugestões pessoais, após desafio feito em aula.

Literatura
FERREIRA, Vergílio – Para Sempre, Bertrand Editora, (1983) 1996
SARAMAGO, Rui Miguel – A Escrita Efémera, Crónica de um Descalabro, Círculo de Leitores, 2002.
VERÍSSIMO, Luis Fernando – Mar de Palavras in A Eterna Privação do Zagueiro Absoluto, Objectiva, 1999

Cinema
Os Livros de Próspero, de Peter Greenway (baseado na peça A Tempestade, de Shakespeare)
http://www.youtube.com/watch?v=cTWWz9xfh8c
O Livro de Cabeceira, de Peter Greenway
http://www.youtube.com/watch?v=n1nUBjk5V-s&feature=related

Blogues
O Bibliotecário de Babel
http://bibliotecariodebabel.com/
O Silêncio dos Livros
http://osilenciodoslivros.blogspot.com/

11.12.08

BOOK QUIZ


You're Siddhartha!

by Hermann Hesse

You simply don't know what to believe, but you're willing to try anything once. Western values, Eastern values, hedonism and minimalism, you've spent some time in every camp. But you still don't have any idea what camp you belong in. This makes you an individualist of the highest order, but also really lonely. It's time to chill out under a tree. And realize that at least you believe in ferries.

Take the Book Quiz at the Blue Pyramid.

10.12.08

Diálogo telemobilistico

- Deu-me o número de telemóvel.
- Hum, e já ligaste?
- Não.
- Fizeste bem. Liga amanhã. Deixa-o um pouco em banho-maria.
- Não sei se vou ligar.
- Se não ligares, liga ele e é sempre melhor sermos nós a tomar a iniciativa. Já sabes, o ataque é a melhor defesa.
- Ele não vai ligar.
- Não lhe deste o teu número?
- Não.
- És sempre a mesma.
- Já sabes que não gosto de dar o meu número.
- Mas que mal é que tem?
- Para ti nenhum, mas não gosto.
- Ás vezes não percebo para que é que queres um telemóvel, se por tua vontade nunca dás o número a ninguém, nem que seja por educação. Quando alguém te dá o número, retribuis.
- Sim, retribuo quando considero que devo, não só porque é suposto.
- Agora deve estar a pensar que não queres nada com ele.
- Que esteja, assim quando lhe ligar apanho-o de surpresa.
- Isso, se…
- Pois, se… devia não é?
- Claro que deves. Pensa bem, o pior que pode acontecer é ser um bocado parvo. Vês o que é que dá e depois manda-lo à vida. Se quiseres até o faço por ti.
- Eheheh. Não é preciso, se há coisa em que sou boa é em mandar um tipo à vida. Fosse eu metade tão boa no resto e não estávamos aqui a falar de números de telemóvel.
- É verdade. E não é tarde, nem é cedo. Vais ligar agora mesmo.
- Aqui? Agora? Não vou nada.
- Vais sim, para eu ter a certeza.
- Isso é que não vou. Já não gosto de o fazer e com público ainda menos.
- E quem me garante que lhe ligas.
- Eu.
- Pois, pois.
- Olha, posso até ser medrosa, mas não sou mentirosa.
- Lá disso, não nos podemos queixar. Prometes então?
- Sim, prometo.
- Ok, então bora lá beber um copo antes que te dê um treco só de pensar em fazer um telefonema. Há gente com muita fobia, mas olha que tu, vai lá vai!
- Pois, faz parte do meu charme…
- Pois, pois.

8.12.08

Sinto a tua mão

Sob o meu seio

Amparando o meu desejo

Encetando nos meus lábios

A sede que só os teus saciam

Como pode este calor gerar

Tanto liquido que entre nos se permuta

Saliva, suor, sémen,

Calor liquido que brota sem secar.

7.12.08

Palavras #125 a 127

Dura-mater - do Lat. dura, dura + mater, mãe. s. f., a externa e mais forte das três membranas (meninges) que envolvem o eixo nervoso encéfalo-medular.

Aracnóide - do Gr. aráchne, aranha + eîdos, semelhante. adj. 2 gén., semelhante à aranha ou à sua teia; s. f., membrana serosa delicada e transparente (meninge) que reveste o cérebro e a medula espinal e fica entre a pia-mater e a dura-mater; s. m., Zool., qualquer animal pertencente à classe dos aracnídeos.

Pia-mater - do Lat. pia, piedosa + mater, mãe. s. f., Anat., a membrana mais interna das que envolvem o aparelho cérebroespinal.

6.12.08

EMS – Eco Museu do Seixal

O EMS é composto por vários núcleos e extensões museológicas em que se procura preservar e divulgar as actividades económicas e culturais características deste concelho, como a pesca, a moagem, a indústria corticeira e de pólvoras, entre outras. Assim, este é um interessante exemplo de como o património concelhio pode ser conservado, contextualizado e apresentado ao público de uma forma aparentemente simples, mas eficaz e interessante.

5.12.08

O desafio da biblioteca actual

O tempo do livro é o tempo da morte e nós estamos vivos e cheios de coisas a fazer. O tempo do livro é o da imaginação trabalhosa e nós estamos cheios de realidade. Descreve esta sala e vê o tempo que se leva, tu a escreveres e eu a ler. Mas eu olho para a sala e sei logo tudo. O tempo do livro é o do carro de bois. Tenho mais que fazer.

Vergílio Ferreira, Para Sempre, p. 106.

É inquestionável que a biblioteca tem, ao longo das últimas décadas, alterado a sua oferta ao público, seja pelos novos suportes de informação existentes, seja pelo tipo de actividades apresentadas, Comummente considerada como o local dedicado ao livro, é também notório que este novo tipo de oferta tem desviado alguma da atenção que há alguns anos atrás lhe era exclusiva.

Assim, a questão que se coloca é se ainda podemos falar de biblioteca? Se sim, é evidente que esta ganhou uma nova acepção. Se não, devemos considerar antes estes espaços como mediatecas, já que media designa genericamente qualquer tipo de suporte pelo qual é veiculada informação. Para responder a esta questão, há que percepcionar o que realmente atrai os utilizadores a estes espaços.

Podemos considerar que o livro ainda é a principal oferta de uma biblioteca. No entanto, serviços como o acesso gratuito à internet, actividades lúdico-pedagógicas e outros suportes de informação estejam a registar um significativo aumento de procura. E esta situação tenderá a manter-se num futuro próximo.

Igualmente num futuro não muito remoto, o papel do livro na biblioteca poderá ser, não o seu maior atractivo, mas o maior pretexto para todas as outras ofertas existentes. Afinal, a internet permite o acesso à informação on-line, o filme é uma adaptação da obra, o debate é uma homenagem à obra ou ao autor, e a animação é baseada numa história. Assim, talvez o maior desafio da biblioteca seja exactamente esse: o de que o livro assuma novamente o protagonismo deste espaço, oferecendo ao leitor uma experiência feita à sua medida e ao seu tempo.

4.12.08

A mão assassina
Incendiou o centro do meu peito
O fogo lavrou, como pode
Até cada extremidade
Queimou o desejo e a vida
Fico agora
Monte de cinza ao vento
À espera que a brisa
Acalme este ardor.
Adelaide Bernardo

2.12.08

Saber Amar

saber sorrir,
a um desconhecido que passa,
sem guardar algum traço,
senão o do prazer
saber amar
sem nada esperar em retorno,
nem respeito, nem grande amor,
nem mesmo a esperança de ser amado,

mas saber dar,
dar sem tomar,
nada fazer senão aprender
aprender a amar,
amar sem esperar,
amar tudo o recebido,
aprender a sorrir,
apenas pelo gesto,
sem ver o resto
e aprender a viver
e seguir.

Saber esperar,
gostar dessa felicidade plena
que nos dão por engano,
tanto que não a esperamos mais.
Se ver e crer
Para enganar o medo do vazio
enraizado como tantas rugas
que marcam os espelhos.

saber sofrer
Em silêncio, sem murmúrios,
Nem defesa, nem armadura
Sofrer de querer morrer
E erguer-se
Como renascida das cinzas,
Com tanto amor a oferecer
Que riscamos o passado.

aprender a sonhar
A sonhar por dois,
Nada como fechar os olhos,
E saber dar
Dar sem rasura
Nem desmesura
Aprender a ficar.
Ver até ao fim
Ficar apesar de tudo,
Aprender a amar,
E seguir,
E seguir…
Lionel Florence & Pascal Obispo, Savoir Aimer

30.11.08

As Memórias de olhar para cima I

Há ainda quem pense que as crianças não conseguem reter memórias da primeira infância. É mentira. Há memórias que ficam e que moldam a nossa personalidade para sempre.

Podem para os outros parecer apenas acontecimentos inócuos. Por vezes até nós não temos a consciência da sua importância no discorrer das nossas vidas. Mas o seu cunho é indelével.

Na minha infância há algumas dessas memórias: algumas mais cómicas, outras mais surreais, outras apenas tristes.

29.11.08

Diálogo (quase) amoroso

- já decidiste?
- Decidi o quê?
- Se vamos para a cama.
- Ainda agora chegamos.
- Sim, mas mesmo antes sabias que era uma carta na mesa no nosso encontro. Resta saber se o queres levar adiante.
- Isso é que é ser frontal.
- Nas palavras que trocámos, afirmaste que não gostavas de lamechices desnecessárias cujo único intuito eram levar-te para a cama.
- É verdade.
- Eu também não gosto de desperdiçar palavras.
- Dá-me mais um pouco. Acho que afinal não estou tão preparada como julgava.
- Mas admites que era essa a intenção?
- Não vale a pena negar. Somos os dois adultos o suficiente para saber que foi isso que nos trouxe aqui.
- Mas…
- Mas é mais fácil planear do que concretizar.
- Há sempre de ter em conta os imponderáveis, não é verdade?
- Sim, chamemos-lhe isso, imponderáveis.
- Podias achar que não havia química. Ou simplesmente descobrir que não é isto que queres.
- Tudo isso eram cartas em aberto.
- E já não são?
- Mais ou menos.
- Mais ou menos?
- Há uma parte de mim que quer avançar sem pensar. E há outra que não consegue relaxar e desligar.
- Então não há nada de errado comigo?
- Não. Pelo menos à primeira vista. Devo preocupar-me com algo?
- Acho que não. Não sou mais, nem menos do que as outras pessoas: um tanto teimoso, um tanto impaciente, um tanto chato, etc., mas acho que a minha ruindade se fica por aí.
- Menos mal.
- Não tens de decidi-lo agora, nem hoje.
- Acho que se não o fizer hoje, então não terei coragem para o fazer mais tarde.
- Não tens de o fazer nunca.
- Oh meu Deus. Talvez seja esse o problema.
- O problema?
- Já não o faço há tanto tempo que não me sinto preparada, mas também me parece que se deixar passar a oportunidade, vai demorar cada vez mais para que o volte a fazer.
- Há quanto tempo?
- Demasiado.
- Não acredito que não tenhas tido oportunidades.
- Algumas. Vontade física ou psicológica é que nem por isso. Surpreendi-te?
- Não, mas digamos que fiquei curioso.

28.11.08

A tua menstruação

Quando nos vestimos de vermelho acontece uma de duas coisas:
- sentimo-nos e parecemos sexys;
- alguém se lembra de um anúncio de pensos higiénicos em que a personagem diz: olá, sou a tua menstruação.

27.11.08

O pequeno-almoço


As minhas manhãs têm um ritual do qual não abdico: o pequeno-almoço. Tomo o tempo necessário para o fazer, porque depois de sair de casa o tempo corre e nunca é suficiente para tudo o que é necessário.

O meu pequeno-almoço passa impreterivelmente por um copo de 33 cl. leite simples à temperatura ambiente no Inverno e fresco no verão. Nada mais, nada menos.

Como alimento sólido, como diariamente uma sandes de marmelada com uma fatia de queijo flamengo. Compro o pão no dia anterior na padaria da rua ao final da tarde, aproveitando a última fornada do dia. O queijo é comprado ao sábado na quantidade necessária à restante semana e já fatiado. A marmelada não pode ser demasiado sólida. A sua consistência tem de ser suficientemente suave para que possa barrar o pão.

Corto o pão longitudinalmente e barro a parte inferior com a marmelada. De seguida coloco a fatia de queijo e completo com o restante pão.

Ingiro alternadamente uma dentada de sandes e um golo de leite. Aprecio sobremaneira o modo como a textura suavemente granulada e doce da marmelada se mistura com a lâmina de queijo.

Já experimentei outros pequenos-almoços, por ventura até mais saudáveis. Mas nenhum outro me dá nem o prazer simples, nem a calma deste.

23.11.08

Palavras #122 a 124

Ladino - do Lat. Latinu. adj., astuto; espertalhão, finório; manhoso; ant., puro; legítimo, lídimo; latino; s. m., rético (idioma).
Caporal - do Fr. Caporal. s. m., nome de um antigo posto militar, entre cabo e sargento; adj. 2 gén., qualidade de tabaco picado.
Ginete - do Ár. zanete < zanata. s. m., cavalo pequeno, de boa raça, fino, bem formado e ligeiro; ant., cavaleiro que pelejava com lança e adaga; gineto.

22.11.08

Tirar vidas

A primeira impressão que retiro deste filme é o seu genérico inicial recordar-me o de Seven, e que considero um dos melhores que já vi, o que podia ser indicativo de uma boa surpresa.
Tirar Vidas é um thriller policial situado em Montreal, Canadá, em que uma jovem profiler do FBI segue o rasto de um serial killer que se apropria da identidade das suas vitimas. É um filme interessante e a narrativa é escorreita, no entanto, não é surpreendente ou inovador.
Possui uma ambiência semelhante a O Coleccionador de Ossos, em que contracena com Denzel Washington. Aqui partilha a tela com Ethan Hawke, que mais tarde viria a ser nomeados aos Óscares juntamente com Denzel por Um Dia de Treino.

21.11.08

O Guardião


Há cerca de 15 anos, Kevin Costner era o homem do momento no panorama do cinema norte-americana, mercê de filmes como Danças com Lobos ou Os Intocáveis. nessas personagens encarnava o all american hero. Mas estes mandatos não são vitalícios e a sua duração é relativa.

Actualmente, Ashton Kutcher é presença assídua nas comédias românticas e goza de grande popularidade junto do público juvenil devido à sua participação em Punk’d da MTV.

Os dois representam um tipo semelhante: o homem sensível e de força e persistência (não exactamente de acção), ou seja, o herói romântico. Então a sensação que transparece é que este filme é uma passagem de testemunho geracional no que diz respeito a este tipo de herói.

20.11.08

Alma espartilhada

Se o apelido é o nome da alma, aquele que revela o nosso interior, então eu tenho a alma espartilhada. Isso explica as minhas inseguranças e dificuldades em tomar decisões, porque afinal, não sendo Adelaide, sou: lai, laidinha, larocas, del, dinai, adê, heidi. Ou seja, não sou uma única, mas sim oito pessoas, e não seria surpreendente que mais algumas se descobrissem, encerradas neste único corpo.

19.11.08

Trocámos olhares no jantar da Mara e os sorrisos da praxe. Nem fixámos nomes, apenas a impressão de que serias Pedro, nem sei porquê.

Dois dias depois cruzamo-nos no centro comercial. Eu a sair da intimissi e tu em direcção à saída. E porque não um café?

Descobrimos ser tu Luís e eu Rita, não Margarida. Valem as gargalhadas e a curiosidade em saber que outros nomes se trocaram. Mas não que fosse importante.

Despedimo-nos com um beijo na face e um até à próxima, temos de combinar qualquer coisa, depois telefono-te.

Que m***a, e os números de telefone?

18.11.08

O amor é cegueira

O amor é cegueira
Não quero ver
Envolverás a noite à minha volta?
Oh, meu coração
O amor é cegueira
Num carro estacionado
Numa rua apinhada
Vês o teu amor
Completar-se
O caminho a dissolver-se
O nó a desfazer-se
O amor é cegueira

O amor é mecânico
E de aço frio
Dedos demasiado dormentes para sentir
Apertar a maçaneta
Apagar a vela
O amor é cegueira

Uma pequena morte
Sem luto
Sem chamamento
E sem aviso
Amor, uma ideia perigosa
Que quase faz sentido

O amor afoga-se
Num poço profundo
Tantos segredos
E ninguém a quem contar
Leva o dinheiro
Querida
Cegueira
Love is blindness, u2

17.11.08

The bedroom diaries

The dress falls on the floor, followed by the lace underwear. There’s no kindness in movements, only a huge urge. Pants, shirts and slips are thrown carelessly by the bedroom. On the bed, whispers, breaths and sweat.

16.11.08

Calma amor, não há pressa de chegar.
Desfruta o ascender, que o topo há-de estar
No momento em que o grito da garganta se escapar.

Calma amor, deixa-te apenas levar
Que a cadência nos irá aportar
E o grito libertar.

Calma amor

15.11.08

Programas Museológicos e Arquitectura

Museu: “… capital cultural objectivado e fonte prestigiada e prestigiantes de incorporação simbólica.”
(João Teixeira Lopes, p.191)

O conceito de museu tem, nas últimas décadas, alargado a sua amplitude, incluindo novas funções lúdico-culturais, para além das tradicionais. Este alargamento potencia uma maior articulação com a cidade em que se insere e com o respectivo quotidiano social.

O museu tem uma influência incisiva no (re)desenho da cidade, pois é muitas vezes o elemento protagonista na requalificação urbana de um local. Este, seja um espaço reabilitado ou construído de raiz, tem um papel activo no respeitante a: requalificação de áreas degradas; redefinição dos limites da cidades; novas acessibilidades; renovada promoção mediática; e novas dinâmicas sociais.

Assim, o museu assume um papel de ícone de modernidade, oferecendo uma interpretação arquitectónica da cidade num determinado período temporal. Incorporando o museu esta ideia de representação espacio-temporal (zeitgeist), torna-se relevante observar como é que as entidades (o próprio museu e os municípios) fazem o aproveitamento dessa representação no seu discurso institucional. Ou seja, importa perceber qual o papel do museu nas estratégias de divulgação das instituições, bem como é realizada a mediatização da imagem do museu, enquanto conteúdo de fruição, e não enquanto contentor de outros conteúdos.

BARRANHA, Helena (2005), «Arquitectura de Museus e Iconografia Urbana: concretizar um programa, construir uma imagem», in SEMEDO, Alice e LOPES, J. Teixeira (coord.), Museus, Discursos e Representações, Porto: Edições Afrontamento, pp. 181-195.

14.11.08

Aprendi que a melhor coisa a fazer quando se pensa em adaptar um livro é comprar um livro ruim. Literatura de segunda. Aprendi isso fazendo justamente o contrário aqui.
Fernando Meirelles, in actual, Expresso #1881

13.11.08

- na próxima semana.
- Só?
- E é se quiseres.
- Mas não pode ser antes?
- Não é aconselhável.
- Então pode.
- Olha, poder, pode-se sempre. Mas senão é aconselhável, por alguma razão há-de ser. E por mais vontade que tenha de ser antes, não estou na disposição de ficar a saber o porquê.
- Ok ok, já cá não está quem falou.
- Ainda bem.
- Um semana… vai parecer uma eternidade.
- Eu sei. A ansiedade não é só tua, também é minha. Sim, e a minha impaciência não está a ajudar.
- Não muito.
- Vou tentar acalmar um bocado. Bem, já que é aconselhável não fazer nada, também não nos faz bem nenhum ficar aqui a olhar um para o outro e a ruminar no assunto. Vamos dar umas voltas e espairecer. Ganhamos mais com isso.
- Óptimo, vamos.
- Vamos.

12.11.08

Blindness


Da obra de Saramago, li apenas O Memorial do Convento, um livro extremamente interessante, quer na temática, quer na construção. Aliás, de Saramago retenho com curiosidade uma declaração numa entrevista na qual afirma que todos os seus livros têm como premissa o acontecimento de uma situação impossível. Logo, à excepção do que o título poderia suscitar, entrei na sala de cinema para ver este filme completamente alheia à sua temática.

Realizado por Fernando Meirelles, o filme tem dois fases narrativas, claramente desiguais em tratamento, pois na segunda transparece uma pressa, necessidade temporal de terminar o enredo num ending demasiado happy, tendo em conta toda a atmosfera criada.

É interessante observar o tratamento dado à cor branca, que ao contrário do que normalmente lhe associamos, transmite uma sensação de opressão.

As personagens são coerentes e, acima de tudo, percebesse o cuidado existente no casting, pois os actores integram-se perfeitamente na pele das personagens. Talvez apenas Mark Rufallo pareça demasiado jovem, mas Julianne Moore, que já nos habituou a interpretações de mulheres atormentadas, mas possuidoras de uma força interior que as impele a lutar contra marés, comprova uma vez mais a sua qualidade como actriz.

11.11.08

Pensar a leitura como processo de conhecimento exterior é paradoxal ao que realmente sucede, o conhecimento interior.
No entanto, a leitura origina este processo recíproco de conhecimento interno e externo. Não é possível conhecer o outro sem nos conhecermos, não é possível conhecermos-nos sem ter o outro como referência.
Chegar ao mais profundo é chegar mais longe. conhecer o interior é conhecer mais além. O ser humano é diferente entre si. Eu sou diferente nos vários papéis da minha vida e necessito de a cada momento desenvolver o seu desempenho. Na leitura, descubro possibilidades várias que me ajudam a desempenhá-los.

9.11.08

Palavras #119 a 121

Indeiscente - adj. 2 gén., Bot., diz-se do fruto que não abre na época da maturação.
Papa-figos - s. m., Ornit., pássaro dentirrostro; s. m. pl., cada uma das velas mais baixas de um navio.
Sicofanta - do Lat. sycophanta + Gr. Sykophántes. s. 2 gén., dizia-se, em Atenas, do denunciante de quem exportasse figos por contrabando; s. m., delator, velhaco e caluniador.

8.11.08

O Amor não tira férias


A época natalícia é pródiga em comédias românticas, porque afinal o amor não tira férias.

Desta feita, duas mulheres atravessam o atlântico em direcções opostas para curar males de amor durante as festas natalícias e acabam por encontrar um novo amor. E está tudo contado, porque não há surpresas (com excepção de Jack Black interpretar talvez o seu personagem menos escatológico), nem há gags extraordinários.

7.11.08

Palavras Mágicas / Bee Season

Após a interpretação em A Insustentável Leveza do Ser, Juliette Binoche começou a integrar produções transatlânticas uma frequência regular, algumas delas com resultados muito interessantes.

Infelizmente, não é o caso deste Palavras Mágicas, que apesar de algumas ideias interessantes, falha redondamente na construção do enredo. Assim, temos: uma pai, professor de teologia hebraica, que impõe a sua crença da família; uma mãe, mulher trabalhadora, que se revela cleptomaníaca; um filho adolescente à procura da sua identidade, que passa inclusive por uma crença diferente da familiar; uma filha, que no meio disto tudo consegue unir a família em torno da sua participação num concurso de soletração, muito ao jeito americano. Tudo isto registado num tom melodramático, que não consegue fazer jus às potencialidades dos temas abordados. É pena.

6.11.08

BBDE

A leitura é um acto solitário. Só nós o podemos fazer e para a sua eficácia não são toleradas intromissões. Mas o mais interessante da leitura é que ela não fica retida em nós. O natural e saudável é que encontre maneira de sair e chegar a outros. Só assim conseguimos aferir da sua relevância.
No entanto, nem sempre é fácil encontrar interlocutores com quem compartilhar a experiência da leitura. Nem sempre os amigos estão receptivos. Aí, a existência de alguns blogs e fóruns é um modo de extravasar esta experiência.
Mas como o ser humano é um animal social, há um prazer na partilha in loco que a torna aliciante e divertida. Daí, que usualmente na última sexta feira de cada mês um destes fóruns se reúne para uma bem disposta tertúlia. É o caso do BBDE – Bad Books Don’t Exist. Quem estiver interessado é só consultar o fórum, participar e depois juntar-se mensalmente à malta. São todos bem-vindos (de preferência com o banhinho tomado).

4.11.08

Se Deus enviar os seus anjos

Amor, não há mais ninguém aqui
Ninguém para culpar
Ninguém para apontar o dedo
Somos só tu e eu sob a chuva

ninguém te obrigou
Ninguém pôs palavras na tua boca
Ninguém aqui aceita ordens
Quando o amor segue de comboio para o sul

São os cegos liderando os alvos
É o tema, o tema das músicas country

Se deus enviar os seus anjos
E se deus enviar um sinal
E se deus enviar os seus anjos
Ficará tudo bem?

Querida, deus tem o telefone desligado
Achas mesmo que atenderia se pudesse?
Já passou algum tempos desde que vimos aquela criança
Às voltas pela vizinhança
Vês a mãe a traficar numa porta
E o Pai Natal com uma taça de esmolas
E os olhos da irmã de jesus são uma ferida
E a Estrada Alta nunca pareceu tão baixa

São os cegos a liderar os alvos
São os policias a ganhar os gatunos

Onde iremos?

Jesus nunca me abandonou
Sabes, costumava mostrar-me a contagem
Depois colocaram-no no entretenimento
Agora é difícil ficar à porta, anjo

É o tema, o tema das músicas country
Mas acho que é algo para continuar

Então onde estão a esperança e a fé
E o amor… é o que me costumas dizer
Pratica o amor… ilumina a tua árvore de natal
E no minuto seguinte queimas um fusível
E o canal de animação muda para as notícias

Se deus enviar os seus anjos
Bem que agora davam jeito
Bem, se deus enviar os seus anjos

E não tenho de saber como

E nem de saber porquê

E não quero uma promessa

E não quero uma mentira

Sabe apenas que preciso de ti

Esta noite

If God Will Send His Angels, U2

3.11.08

A Última Memória / The Final Cut


A memória e a sua construção são temas que me atraem, talvez porque desde cedo percebi que a memória não corresponde à realidade e intrigam-me os processos pelos quais se gera essa disparidade. Isto baseado na crença de que o interior da nossa mente seja à partida um dos poucos territórios da nossa vida sob o qual temos mais controlo. No entanto, a nossa mente é de uma fragilidade tal que facilmente se manipula a sua informação, seja pela mão de outros, seja pela nossa. Qualquer incursão neste meandro é capaz de revelar várias surpresas. O que nos coloca numa delicada posição, pois a nossa identidade é fortemente condicionada pela nossa memória.

Esta temática tem sido abordada em vários filmes como: Memento, Pago para Esquecer, Minority Report, entre outros. Estes abordam sobretudo o modo como a memória pessoal, ao ser manipulada, afecta a nossa personalidade e identidade. Neste The Final Cut, a perspectiva é diferente, pois as memórias individuais são manipuladas após a morte, com o intuito de que perdure nos outros uma memória do indivíduo à medida das expectativas que os outros têm dele.

Situado num futuro relativamente próximo, seguimos um Editor de Memórias (captadas graças a um implante cerebral que regista toda a vida do individuo), que no decorrer do seu trabalho se depara com alguém do seu passado e simultaneamente se vê envolvido numa luta pela liberdade de expressão individual por parte de activistas, o que o obriga a um confronto com o seu passado e a uma reavaliação das sua crenças.

2.11.08

Sabedorias

De todos os estados de espírito humanos, talvez a inacessibilidade deliberada

seja o mais rapidamente comunicável –

de todos pode assinalar maior êxito, maior fatalidade.

Eudora Welty


1.11.08

o neto que não chegaste a conhecer faz hoje cinco anos. É esperto como todas as crianças, talvez demasiado mimado. Pode ser um anjo, mas também sabe ser um diabinho sorrateiro. Lamento que não tenhas tido esta alegria que em vida tanto querias. Espero que o possas velar, por ti e por ele.

30.10.08

TAC

Agualva-Cacém está perante um novo desafio: a constituição de um novo grupo de teatro amador na cidade. Partindo da iniciativa de antigos membros dos Jotas e contando com a colaboração das várias juntas da cidade e com o contributo de outros elementos, este projecto propõem-se a colmatar uma lacuna na oferta de actividades culturais da cidade, quer em termos de fruição, quer em termos da participação activa. Feito de e para os nossos cidadãos, o projecto conta com a colaboração de todos os interessados, pois é necessário de actores e actrizes para representação da peça TV Você, que pretende ser uma crítica à actual sociedade que se rege por esse pequeno aparelho que é a televisão. No entanto, quem quiser participar sem ser na área da representação, será igualmente bem-vindo.

Grupo de Teatro amador da cidade de Agualva-Cacém
e-mail: grupoteatroagualvacacem@gmail.com
Blog: http://fazerteatroemagualvacacem.blogspot.com/

Ensaios: todas as quintas-feiras, 21 h
Local: Auditório Municipal António Silva

Peça: TV Você

29.10.08

workshop semântico #32

Índia – um guia
(excertos)
Com 683.800.000 de habitantes, a Índia apresenta a segunda maior população do mundo, a seguir à china. Esta dimensão abarca uma grande diversidade étnica e religiosa, originada por sucessivas invasões que assolaram o país ao longo da sua longa história. Entre as várias etnias encontram-se: arianos, drádivas, mongolóides e negritos.
O país possui dois idiomas oficiais: hindi e inglês. Mas são igualmente falados: telegu, tamil, bihari, marathi, bengali, gujarati e rajasthani, entre outros.
Em termos religiosos, as maiores crenças professadas são a hinduísta e a muçulmana. Existem no entanto seguidores de outras crenças, sobretudo de pendor panteísta.
A primeira religião conhecida neste território é o vedismo, que, no segundo milénio, evoluiu e originou o bramaismo e, posteriormente, cerca de 800 a.C., deu por sua vez origem ao hinduísmo. No século VI a.C., for a fundados o budismo e o janaismo, que se desenvolveram sobretudo dentro e for a da Índia, respectivamente.
A partir do século X, chegaram à índia os parsis, seguidores do zoroastrismo. Nessa mesma altura, iniciou-se a penetração do islamismo no território. A posterior convivência entre hinduísmo e islamismo originou a religião sincrética dos siks, em finais do século XV.
No século XVI, com os descobrimentos introduziu-se o cristianismo e posteriormente o luteranismo e o anglicanismo.

27.10.08

workshop semântico #31

Um Guia para Angola

(excerto)

O sul semi-árido do país é caracterizados por temperaturas baixas na estação seca e elevadas na estação das chuvas, que chegam aos 1000 mm.

A flora e a fauna são variadas e bem adaptadas às variações climáticas. (…) merece destaque, entre outros, o caxexe, pássaro que abunda sobretudo na região indígena dos cuanhama. Esta ave alimenta-se sobretudo de pequenos insectos, como escaravelhos, gafanhotos e a autóctone salele.

26.10.08

Palavras #116 a 118

Cistoscopia - do Gr. kýstis, bexiga + skop, r. de skopein, ver; s. f., observação médica da bexiga.

Basal - adj. 2 gén., que se encontra ou se desenvolve na base de um órgão.

Cinocéfalos - do Lat. cynócephalu < kynoképhalos, cabeça de cão. s. m., género de macacos cuja cabeça é semelhante à do cão; adj., que tem cabeça de cão.

25.10.08

A Escola do Rock


Feito à medida da comicidade do seu protagonista, o actor Jack Black, este filme relata as desventuras de um músico falhado que encontra no ensino a sua vocação de vida. Divertido q.b., adequa-se perfeitamente às tardes de fim de semana.

24.10.08

Nono Andar, Nuno Rodrigues

Uma lágrima a cair
de um nono andar
uma ruiva na janela a chorar
outra lágrima a cair
do mesmo andar
e o resto não se sabe
e o resto não se diz
e o polícia a correr
atrás de um ladrão
cai a trela
cai o dono
foge o cão
o vendedor de jornais
vai subindo a rua
a gritar
o amor quando acontece
nunca é de mais
não se esquece
nunca mais
uma lágrima a cair
de um nono andar
uma ruiva na janela a chorar
outra lágrima a cair
do mesmo andar
e o resto não se sabe
e o resto não se diz
e o polícia a correr
atrás de um ladrão
cai a trela
cai o dono
foge o cão
o amor quando acontece
nunca é de mais
não se esquece
nunca mais

23.10.08

O frio gela as costas e encarquilha o espírito. Apetece apenas cerrar os olhos e hibernar debaixo de quentes cobertores e voltar a acordar apenas quando o morno sol visitar de novo o meu albergue.

22.10.08

O Poder dos Sonhos V

Os sonhos nocturnos obrigam-nos muitas vezes a enfrentar pensamentos que o consciente diurno insistir em esconder debaixo de um qualquer tapete da razão. São pequenas técnicas do cérebro que de nada nos servem, porque à noite, quando nada tem a temer, pois a escuridão é a sua sentença, liberta os seus anseios e desejos.

Foi assim que me dei a sonhar contigo, mesmo antes de te conhecer, e a admitir o propósito muito claro que terás na minha vida. Não será talvez nobre, mas será muito salutar. Não esperes nada mais (talvez não esperes já), porque apenas vou tomar o que necessito ao meu bem-estar.

21.10.08

Fica (Longe, Tão Perto)

Luz verde, loja de conveniência
Paras para um maço de cigarros
Não fumas, nem sequer queres
Conferes o troco
pareces um carro amassado
As rodas giram e tu revirada
Dizes que quando te bate, não te importas
E agora, é isso que é?

Luzes vermelhas, manhã cinzenta
Arrastas-te de um buraco no chão
Vampiro ou vítima
Depende de quem vê
Costumas ficar a ver os anúncios
E imitar os apresentadores de tv

E se olhares, vês através de mim
E se falares, não é comigo
E quando te toco, não sentes nada

Se ficasse, então a noite abdicaria de ti
Fica, e o dia manterá a sua confiança
Fica, e a noite será suficiente

Longe, tão perto
Alto com a estática e as ondas de rádio
Com a televisão satélite
Podes ir a qualquer lugar
Miami, Nova Orleães, Londres, Belfast e Berlim

E se ouvires, não posso chamar
E se saltares, podes até cair
E se gritares, apenas te ouvirei

Se ficasse, então a noite abdicaria de ti
Fica, e o dia manterá a sua confiança
Fica com os demónios que afogas
Fica com o espírito que encontrei
Fica e a noite será suficiente

Três da madrugada
tudo calmo e ninguém à volta
Apenas o baque e o estalido
Enquanto um anjo corre para o chão

Stay (Faraway, So Close!), U2

19.10.08

16.10.08

No nosso primeiro encontro, leva-me a dançar.

Quero abandonar-me a ti embalada no ritmo da música.

15.10.08

Há muito silêncio na minha vida. Demasiado. E nem a música do rádio, nem o som da televisão o conseguem disfarçar.

O que realmente necessito é alguém com quem trocar sons ao final do dia. Sons de relatos quotidianos cujo sentido se construa dia a dia.

Mas restam-me apenas silêncios cada vez mais difíceis de suportar. A minha voz sem alguém que a oiça nada mais é que um ruído de fundo na noite.

13.10.08

A soma dos dias

Os dias que passam não retornam
Somo os dias e algumas horas
Em que caminhei o rumo certo
Mas resultam-me sempre
Um excesso de incógnitas
Cujo sentido ainda hoje se desmultiplica.

12.10.08

Palavras #113 a 115

Tamil - do Tâm. tamil, melodiosidade. s. m., língua falada na Índia meridional e no Norte e Leste do Sri Lanka e que constitui a mais antiga representante da família das línguas dravídicas; por ext. grupo das línguas dravídicas; indivíduo falante da língua tâmul; (no pl. ) grupo étnico da Índia do Sul (Tâmules).
Zoroastrismo - de Zoroastro, n. pr. s. m., doutrina de Zoroastro, segundo a qual existem dois princípios fundamentais na origem e para a explicação de todas as coisas, o Bem e o Mal.
Jainismo - de Dijna, n. pr. s. m., uma das três grandes religiões da Índia cujo sistema filosófico foi fundado por Vardhama, chamado Dijna (o Vitorioso), no séc. VI a.C. e que admite o renascimento da alma.

11.10.08

É-me impossível não voltar às mesmas palavras, quando a mesma dor permanece ainda na sua origem. A sua intensidade suaviza, mas, proporcionalmente, aumenta o vazio a cada dia, mês ou ano que passa, e nada, nem ninguém, tem a capacidade de o colmatar.

Sigo dia a dia, nos pequenos e grandes afazeres, mas no silêncio nocturno assola-me cada vez mais a tua ausência. Conseguirás perceber o quão eu gostaria de deitar a minha cabeça no teu colo e sentir a tua mão acarinhar-me? Sei que é pedir demais aos deuses, mas há noites em que é tudo o que queria e não sentir as lágrimas que abundantemente derramo ao tentar recordar essa sensação que só tu me deste.

9.10.08

é certo que a minha vida não dá um filme, nem desejo que o dê. O que realmente quero é escrever uma história que dê um filme.

Mas conheço algumas vidas que dariam alguns filmes: algumas comédias, mas sobretudo vários dramas. Porque será que a nossa atenção recai sobretudo sobre o drama da vida e não sobre a sua comicidade?

O drama inspira respeito, o riso descrença. Seria bom que os filmes das nossas vidas fossem mais cómicos do que por vezes são, porque no final o riso ainda é o que temos de melhor.

É tão estranho perceber do quão fácil foi esquecermo-nos de um livro. Esquecer um filme não me espanta tanto, pois ocupa normalmente apenas duas horas nas nossas vidas e duas horas podem ser apenas isso: um período de tempo já passado. Espanta-me mais quando o mesmo se passa com um livro, pois, afinal, ocupa-nos um pouco mais de tempo. Poderemos daí tirar uma elação quando ao livro ou, melhor, quanto ao leitor? De certo, mas não será tão simples quanto isso.

7.10.08

ainda não encontrei o que procuro

Subi as mais altas montanhas
Corri por campos
Apenas para estar contigo
Corri
Rastejei
Escalei as paredes da cidade
As paredes da cidade
Só para estar contigo

Mas ainda não encontrei o que procuro

Beijei lábios de mel
Senti carícias curadoras
Que queimam como fogo
Este desejo em chamas

Falei a língua dos anjos
Apertei a mão do demónio
Era amena como a noite
Fria como uma pedra

Mas ainda não encontrei o que procuro

Acredito no reino que virá
Em que todas as cores serão uma
Serão uma
Sim, ainda procuro

Quebrastes os laços
E soltaste as amarras
Suportaste a cruz
Da minha vergonha
A minha vergonha
Sabes que acredito

Mas ainda não encontrei o que procuro
I Still Haven't Found What I'm Looking For, U2

6.10.08

Olho-me ao espelho, enquanto penteio o cabelo após mais um banho. Perscruto o meu rosto em busca das marcas do tempo que por vezes vejo noutros rostos que já passaram os trinta. Presto atenção aos contornos dos olhos e dos lábios. Observo as maças do rosto e penso que o tempo tem sido gentil comigo. No meu rosto apenas a testa apresenta algumas ameaças de vincos.

O mesmo não se passa com o meu cabelo, em que o castanho escuro se apresenta já riscado. Valem os caracóis que disfarçam a quantidade de fios brancos. Mas observando as têmporas com cuidado, o branco avança gradualmente na sua intensidade.

Já ponderei pintar o cabelo e assim prolongar uma aparência mais jovem, mas irrita-me a perspectiva de pinta-lo com uma regularidade quase religiosa. A verdade é que, mesmo desejando manter a frescura da juventude até o mais tarde possível, gosto da maturidade que os cabelos brancos anunciam. Afinal, não são apenas um sinal do tempo. São a consequência de decisões, várias penas e algumas dores. Não uma mera imposição biológica, são uma conquista feita de experiência e sorrio ao espelho porque considero que são merecidos.

5.10.08

workshop semântico #30

Actualmente, mais do que uma tradição, a gastronomia é uma área dominada pela imaginação, em que tudo é possível. Aliando os produtos tradicionais às mais recentes investigações científicas, podemos encontrar as mais variadas ofertas gastronómicas um pouco por todo o lado. Assim, não é estranho verificar que certas ementas oferecem misturas que até à pouco pareciam saídas da ficção cientifica, como: geleia de ouro guarnecida com sementes de pimpól, doce hidrofilizado de criptomérias brancas ou milharas granuladas com figos caramelizados.

4.10.08

Fallen – Anjos Caídos


Este filme de 1998 é um interessante thriller em que uma condenação judicial inequívoca se transforma numa investigação policial de contornos menos óbvios. Bem servido em representações, apresenta um enredo bem estruturado que junta suspense, religião, oculto e um final irónico q.b.

1.10.08

Diálogo amoroso II

  • Consegues perdoar e esquecer?
  • Perdoar e esquecer? Não. Consigo virar a página, mas não consigo fazer tábua rasa. Não são metáforas originais, eu sei. Mas são as que me ocorrem.
  • Acredito. Também só me ocorre dizer que isto será sempre uma pedra no sapato entre nós.
  • Realmente, não nos podemos gabar de originalidades.
  • Talvez devêssemos fazer um curso de escrita criativa.
  • Ahah. Sim, é uma possibilidade.
  • Quem sabe, poderíamos encontrar um final menos cliché para esta história.
  • Achas?
  • Não, realmente não. Na verdade, não há muita volta a dar à questão. As coisas são como são.
  • Sim. Mas acho que tens razão. Devíamos fazer um curso qualquer. Assim, não faremos os mesmos erros quando tentarmos escrever outra história.
  • Bem, essa lição já aprendi. Acredita!
  • Acredito!.
  • Mas ainda não está pronta para outra tentativa?
  • Ainda não.
  • Compreendo.
  • Às vezes, não é irritantemente irritante tanta compreensão mútua?
  • Eheh. É o fatalismo da maturidade. Sermos estupidamente compreensíveis.

30.9.08

Contemporâneos vs Gato Fedorento

É verdade que os GF trouxeram à televisão uma lufada de ar fresco e levantaram a fasquia do humor nacional. Mas, como em tudo na vida, tenta-se sempre superar o que já foi feito, quer empregando maior qualidade aos modelos já concebidos, ou procurando novas perspectivas e modelos.

Assim, surgiram no panorama humorístico nacional Os contemporâneos, que logo na primeira série souberam definir as suas particularidades e explorar idiossincrasias tugas, através de um humor inteligente e acutilante. Dai pensar que actualmente o projecto Contemporâneos é mais bem conseguido que os GF, que parecem ter atingido uma certa estagnação. Sim, porque foram-se os Meireles, mas o Zé Carlos é apenas mais um nome, como poderia ter sido o Xico Toino. Isto não quer dizer que não me divirta a vê-los. Divirto imenso. O RAP é um excelente imitador e o ZDQ é uma mulher como poucas, sendo apenas destronado pelo Joaquim Monchique.

O problema é que o humor tem timmings próprios, que não se coadunam com fórmulas repetidas ad extremis. Assim, os Contemporâneos conseguiram injectar um novo ânimo no humor nacional e são eles que actualmente impõem a fasquia no alto.

É óbvio que, dedicando-se ambos à crítica e satirização da sociedade actual, têm como temas dos sketches as mesmas situações, mas considero mais hilariantes e acutilantes as rábulas dos Contemporâneos, daí que seja o meu programa de humor favorito.

E, disto isto, vão trabalhar. Vão fazer qualquer coisa de útil prá sociedade, em vez de ficar aí a ler blogues nas horas de expediente e a dar prejuízo ao patrão.

28.9.08

Palavras #110 a 112

Mílharas - de milho. s. f. pl., Ictiol., substância granulosa dos ovos dos peixes; ovas; grânulos dos figos.

Criptoméria - do Gr. kryptós, oculto + méros, parte. s. f., Bot., género de plantas taxodiáceas originárias do Japão e cultivadas em S. Miguel.

Pimpól - s. m., Bot., árvore artocarpácea da Índia.

27.9.08

Tempestade Tropical


Esta é uma das mais recentes sátiras à indústria cinematográfica americana. Tendo como pano de fundo a rodagem de um filme de guerra (com alusões óbvias sobretudo a Apocalipse Now e a Platoon), aproveita para esmiuçar e ridicularizar os vários intervenientes no processo de produção de um filme. Assim, passa em revista os actores (o has been, o oscarizado, a estrela musical na sua primeira aparição cinematográfica, o rookie, o galhofeiro escatológico), o argumentista e a sua história “verídica”, o realizador contratado, mas sem controlo criativo ou de decisão sobre o produto, e o produtor executivo (de fazer frente a qualquer Corleone de peso). Todos os intervenientes são explorados nas suas fraquezas e grandezas.

Não é um filme tecnicamente excelente. É bem executado e é pena que alguns gags/plots se estendem demasiado. Mas o que mais realço neste filme é a excelente interpretação de Tom Cruise (sim, esse mesmo), no papel do todo poderoso produtor e não me admirava nada se esta interpretação lhe valesse uma nomeação ao Óscar de actor secundário (ironias à parte). Aliás, é pena que Cruise arrisque muito pouco como actor, porque até tem potencial, e se acomode tanto ao papel de galã, que aqui realmente não é.

26.9.08

A terapia do amor


O amor não tem idade, nem momento apropriado para surgir nas nossas vidas. Apenas surge e resta-nos vivê-lo pelo período certo, seja uma semana, um ano, ou uma vida. Porque nem todos temos os mesmos tempos e vivemos a vida em diferentes velocidades, há que ter a sabedoria de avaliar qual o tempo certo do amor. Sabedoria essa que é o mais complexo de atingir.

O interessante deste filme é apresentar-nos uma história de amor que, para além da paixão e deslumbramentos iniciais, se centra nestes tempos do amor e que, podendo não ditar o fim do sentimento, dita por vezes o fim das histórias.