21.11.09

Testamento Vital

Ponderar hoje o que seria o meu testamento vital é obrigar-me a dar materialidade à morte. E aos 33 ninguém está preparado para enfrentar a sua morte. Por outro lado, quando se tem uma tradição familiar de cancro, a morte é sempre um fantasma presente. Mas há sempre uma diferença entre essa presença difusa e o que será a nossa morte concreta.
Então, hoje, num estado saudável, em caso de acidente, sou a favor de métodos de reanimação. Se eventualmente entrar em morte cerebral, os meus órgão são para doação. A mim já nada fazem, que sejam uma nova oportunidade para quem deles precise.
Se daqui a uns anos o cancro for uma realidade, tentarei combate-lo com o máximo das minhas forças. Quanto este entrar numa fase terminal[1], quero passa-la com a maior dignidade possível: sem tratamentos supérfluos e debilitantes e recorrendo a cuidados paliativos.


[1] De todas as pessoas que conheci com cancro, ninguém lhe sobreviveu. Considero que é uma guerra que nunca se vence, apenas se ganham batalhas.

20.11.09

palavras #197 a 199

Enxovia - s. f. Parte térrea ou lajeada da prisão, rente com a rua, ou abaixo do seu nível.
Lura - (talvez do latim lura, -ae, boca de saco de couro). s. f. 1. Toca de certos animais, especialmente de coelho ou lebre. = covil 2. Buraco na terra. = cova 3. Artefacto de barro para criação de coelhos.
Pua - s. f. 1. Espigão, bico, ponta aguçada. 2. Aguilhão, ferrão. 3. Espinho. 4. Parte da espora que entra no buraco do tacão. 5. Extremidade da verruma e de alguns outros instrumentos. 6. Nome de um instrumento que serve para furar. 7. Intervalo entre os dentes do pente do tear. arco de pua: instrumento de carpinteiro para abrir furos.

19.11.09

Apuramento para o Mundial 2010

A verdade é que há uns meses atrás pensei que a tarefa fosse impossível, mas estou contente por me ter enganado.

18.11.09

Associativismo Local

Hoje, assisti a um Seminário sobre Associativismo Local, promovido pelos Serviços Desconcentrados do IPJ – Instituto Português da Juventude.
Dos vários temas abordados, foi interessante perceber: o modo como certas associações de suposto carácter não lucrativo funcionam como verdadeiras empresas; as diferentes realidades no que diz respeito a apoios municipais; as dificuldades causadas pelos requisitos burocráticos dos apoios, sejam estatais ou municipais; o valor e empenho de certos indivíduos e instituições; a importância do trabalho em rede, mas que raras vezes consegue ser implementado.

17.11.09

Em português nos entendemos

Ontem, duas notícias chamaram-me a atenção: a atribuição ao português Arnaldo Saraiva de uma das Cadeiras da Academia Brasileira de Letras; e o aumento do ensino do português na Estremadura espanhola. 
Estas duas notícias evidenciam duas situações paradoxais: a importância e potencialidade do português como língua de comunicação internacional; e a ineficácia das entidades portuguesas competentes na sua respectiva promoção.
A promoção do português no estrangeiro tem tido uma actuação falhada e é simultaneamente com gosto e tristeza que vemos outros países ter papéis mais activos nesta área. O Brasil, com uma comunidade superior a 40 milhões de falantes, tem sido o grande operário desta promoção. Dai que não seja de estranhar que, por exemplo as últimas edições de prémios como o Leya o PT tenham sido ganhas por autores desta nacionalidade. Também não será de estranhar a existência no Brasil deum Museu dedicado à língua portuguesa (e que o nosso ainda anda à toa).
Agora é a vez dos espanhóis salientarem a importância do português como língua franca, pois constatam o aumento do número de trabalhadores português no país (p. ex. a construção pública emprega mais de 3000), bem como a procura de serviços de saúde e de comércio.

16.11.09

Há uma parte de mim que fantasia
Há uma parte de mim que deseja
Mas maior é a parte de mim que anseia apenas por um abraço

15.11.09

Reinventar Carl Sagan

A minha geração conheceu alguns dos segredos do universo através da locução de Eládio Clímaco, que dava voz à narração de Carla Sagan.
Para mim assistir aos seus programas significava muito simplesmente imaginar. Imaginar mundos, conceitos, seres.
Para relembrar o seu trabalho, aqui fica um video que comemora o que seria o seu 75º aniversário.



[Sagan]
Se quiseres fazer uma tarte de mação desde o início
Primeiro tens de inventar o universo

O espaço é preenchido com uma rede de buracos de verme
Podes emergir num qualquer outro lugar no espaço
Num outro tempo qualquer

o céu chama-nos

senão nos destruirmos
um dia aventuraremo-nos pelas estrelas

aguardamos uma madrugada ainda mais gloriosa

não um nascer de sol, mas o despertar de uma galáxia
uma manhã com 400 biliões de sóis
o despertar da via láctea


o cosmos transborda de verdades elegantes
de extraordinárias relações
de fantásticas máquinas da natureza

Acredito que o futuro depende profundamente

Do quão bem compreendermos este cosmos
No qual flutuamos como um grão de poeira
No céu matinal

Mas o cérebro faz muito mais do que lembrar

Compara, sintetiza, analiza
Gera abstrações

O pensamento mais simples como o conceito de número um
Possui uma elaborada lógica subjacente
O cérebro tem a sua própria linguagem
Para testar a estrutura e a consistência do mundo

[Hawking]
Durante milhares de anos

As pessoas têm deambulado pelo universo
Terá dilatado para sempre
Ou teve um limite

desde o big bang aos buracos negros

da materia negra a um possível esmagamento
a nossa imagem do universo hoje
está repleta de ideas extraordinárias


[Sagan}
quão afortunados somos por viver agora

o primeiro momento na história humana
em que de facto visitamos outros mundos

a superficie da terra é a costa do oceano cósmico

ainda agora nos aventuramos
e a água parece convidativa.

Descoberto no  De Rerum Natura.

14.11.09

Muda quem és,
não quem queres ser.

13.11.09

Antologia de Contos, Mª Teresa Horta



Como é característica da escrita da autora, a mulher assume o protagonismo de todas as histórias. Nos seus inúmeros papéis, a mulher apresenta-se como: fonte de sedução, conquista, ausência, abandono materno, (in)conformidade expectativas sociais, transformação, loucura; mas sobretudo como dona do seu destino.

12.11.09

Heights


Heights é um bairro nova iorquino onde se cruzam muitas vidas. Entre elas, as das cinco personagens deste filme, que, num espaço de 24 horas, são obrigadas a fazer escolhas decisivas na sua vida.
Apesar de pouco conhecido, é um filme interessante.

11.11.09

diálogo friorento

-         hoje, demorei mais de 20 minutos no duche.
-         E?
-         Não é normal. Demoro, quando muito, cinco minutos.
-         Isso não é um banho, é passar o corpo por água.
-         É tempo mais que suficiente para lavar o cabelo e o corpo. Não ando a cavar terra para andar imunda.
-         Então, demoraste 20 minutos. qual é o problema? Estava a saber-te bem e aproveitaste.
-         O problema é que no meio do duche finalmente percebi porque é que também ando a dormir tanto e porque é que quando chego a casa visto quase logo o roupão.
-         Andas cansada, precisas de relaxar.
-         Não, não é isso. É pior. É porque não tenho calor na minha vida. Por isso recorro ao calor do duche, da cama, do roupão. Para sentir calor. Para me sentir aconchegada, reconfortada.
-         És friorenta. Não é nada demais.
-         Não, não sou friorenta. Sou sozinha, sabes há quanto tempo ninguém me abraça? Eu já nem me lembro quando foi a última vez.
-         Tadinha. Precisas de um abraço. Anda cá que isso resolve-se.
-         Desculpa, mas não se resolve com os teus abraços, por mais bem intencionados que sejam, apesar de ajudar sempre. Obrigada. Sinto falta de um abraço a meio da noite, tem de ser o calor de um corpo ao meu lado no sofá em silêncio ou a partilhar os acontecimentos do dia. Tem de ser uma mão a ajeitar-me os caracóis e a acariciar-me o pescoço.
-         Compreendo. Realmente esse calor não te posso dar lamento.
-         Também eu. Infelizmente, a conta da água este mês vai ser grande. 

10.11.09

O Efeito Dominó

Por mais que tente, não consigo ter uma memória precisa de "onde é que estava" aquando da queda do Muro de Berlim. Tenho noção de notícias e reportagens televisivas posteriores, de falar sobre o assunto na disciplina de História e do posterior concerto de Roger Waters - que foi para mim uma revelação.

Hoje, ao ver imagens do derrube do dominó gigante que assinala o 20º aniversário da queda do muro, não posso deixar de considerar esta inicitativa de uma simplicidade e simbologia atrozes.

9.11.09




A minha mão só tem sentido se cerrar os olhos e a imaginar tua.

8.11.09

Joelho, Maria Teresa Horta

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.