Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois

Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois
Mais informações: www.cm-sintra.pt

30.12.08

Continua

O amor não é fácil
E a única bagagem permitida…
É tudo o que não consegues deixar para trás

E se a escuridão nos separar
E se a luz do dia faz pressentir um caminho longo
E se o teu coração de vidro rachar
E por um segundo voltares a trás
Oh não, sê forte

Continua, continua
O que tens ninguém pode roubar
Não podem nem sequer sentir
Continua, continua
Estás a salvo esta noite

Fazes a mala para um lugar onde nenhum de nós esteve
Um lugar em que é preciso acreditar para ser visto
Podias ter voado para longe
Um pássaro canoro numa gaiola aberta
Que apenas voará, apenas voará por liberdade

continua, continua
o que tens ninguém pode negar
não se pode vender ou comprar
continua, continua
estás a salvo esta noite

Sei que dói
E o teu coração se despedaça
E que não aguentas tudo
Continua, continua

Lar… é difícil saber o que é quando nunca o tiveste
Lar… não sei dizer onde é mas é para lá que vou
É onde a dor está

deixa para trás
Tens de deixar para trás
Tudo o que desejas
Tudo o que fazes
Tudo o que constróis
Tudo o que partes
Tudo o que medes
Tudo o que sentes
Tudo isto podes deixar para trás
Tudo o que pensas
Tudo o que sabes
Tudo o que dizes
Tudo o que imaginas
Tudo o que planeias
Walk On, U2

29.12.08

Já passava da meia-noite quando a campainha tocou inesperadamente. A primeira sensação foi de pânico: que teria acontecido?

28.12.08

workshop semântico #33

Workshop Semântico
Gino Rossi enveredou por uma vida de crime ainda em tenra idade. Na verdade, não teve muito por onde escolher. A única opção resumia-se a perpetrar ou a sofrer. Nenhuma das hipóteses era apelativa, mas a primeira parecia sem dúvida menos prejudicial à saúde. Não que nas ruas velhas e suja da cidade se obtivesse uma educação formal, mas a sabedoria reside um pouco em todo o lado e não lhe era alheia a lição de que era mais importante manter os seus inimigos próximos, mas do que os eventuais amigos. Que o valor da amizade nas velhas ruas tinha apenas o valor necessário à sobrevivência quotidiana.
O crime entrou assim na sua vida sem o auxílio de qualquer prédica de algum pequeno pascácio de aspecto patibular.

27.12.08

25.12.08

christmas highlights

“Tia tens de me ajudar a pôr os corninhos”
= uma rena Rodolfo

“ah, era mesmo isto que eu queria.”
= uma nota de 10€

“Vai lá ao computador pôr o CD.”
= 6 audições do Rancho Folclórico de Cernache do Bonjardim

23.12.08

SWAT Agualva?

Esta noite, nas traseiras do prédio uma carrinha da PSP e seis agentes armados e pelo menos mais dois à paisana.

21.12.08

Palavras #128 a 130

Prédica - do Lat. Praedicare. s. f., acto de pregar; sermão; pregação; prática.

Patibular - adj. 2 gén., relativo a patíbulo; com aspecto de criminoso.

Pascácio - do Gr. Pascasios. s. m., idiota; lorpa; indivíduo simplório; pacóvio.

20.12.08

Autor Desconhecido.

À medida que a sociedade muda, temos de mudar com ela, mas tal não significa demolir instituições preciosas e apreciadas como a biblioteca pública.[1]

Capturada após um ataque aéreo durante a II Guerra Mundial, a imagem poderia estar na origem de um dos vários quadros surrealistas de Magritte. Estes homens impecavelmente vestidos e com os seus chapéus não pairam no ar nem são fruto de efeitos de óptica, mas parecem tão fora de contexto quanto as personagens deste pintor.
Não será por certo usual que em períodos caóticos, como são certamente os de guerra, se tenha a biblioteca ou a leitura como prioridade. No entanto, que outro local poderá encerrar em si uma promessa de ordem nesse imenso caos? Não serão as estantes devidamente organizadas de uma biblioteca a prova de que todo o caos poderá encontrar uma ordem justificada. Não será a promessa do conhecimento a maior arma contra a ignorância e caos das sociedades. Talvez seja essa promessa que leve os homens de bem a procurar nestes espaços, o repositório da memória dos homens, as ferramentas para que o mal não triunfe.

[1] USHERWOOD, Bob, A Biblioteca Pública como Conhecimento Público, Editorial Caminho, Lisboa, 1999. (pág. 15)

18.12.08

Inventário, José Saramago

De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça da camurça com que pisas.

De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.

A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.

De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.

16.12.08

Quando o amor chegar à cidade

Era marinheiro, andava perdido no mar
Sob as ondas

Antes do amor me salvar
Era um lutador, podia acender um rastilho
Agora sou acusado das coisas que disse


O amor chega à cidade e vou apanhar esse comboio

Quando o amor chegar à cidade vou apanhar essa chama

Talvez tenha errado ao decepcionar-te

Mas fiz o que fiz antes do amor chegar à cidade

Costumava fazer amor sob o ocaso vermelho
Fazia promessas que logo esquecia
Ela era alva como o laço do vestido de noiva
Mas deixei-a à espera antes do amor chegar à cidade

Corri para uma espelunca quando ouvi o grito da guitarra
As notas eram tristes, eu vivia num sonho
Enquanto a música tocava vi a minha vida girar
Esse foi o dia em que o amor chegou à cidade

estava lá quando cruxificaram o senhor
Segurei a bainha quando o soldado desembainhou a espada
Atirei o dado quando o perfuraram
Mas vi o amor conquistar a grande divida

When Love Comes To Town, U2 & B.B. King

15.12.08

A Biblioteca, U. Eco

A Biblioteca é um texto escrito originalmente para uma conferência proferida por Eco em 1981, tendo sido editado nesse mesmo ano.
Impregnado de um grande humor, o texto fala dessa grande aspiração que é a constituição de uma biblioteca à imagem do homem. Ou seja, uma biblioteca à medida das suas (várias) necessidades. Por isso mesmo, elabora uma lista de 19 pontos pelos quais se rege uma má biblioteca, com o objectivo de pela negativa se chegar a um modelo o mais próximo possível da biblioteca ideal.
Dos vários pontos, mais ou menos perceptíveis ao comum leitor/utilizador de biblioteca, salienta-se:
- “a biblioteca deve desencorajar a leitura cruzada de vários livros, porque provoca estrabismo”;
- “ o bibliotecário deve considerar o leitor como inimigo, um vadio (senão estaria a trabalhar), um ladrão potencial”.
É um texto de fácil compreensão e em que qualquer utilizador de biblioteca se revê a dado momento.

14.12.08

A Biblioteca de Babel, J. L. Borges

Em 1941, Borges escreveu um pequeno texto intitulado A Biblioteca de Babel que foi editado em 1944 no livro Ficções. Desde a sua edição, este pequeno conto tem instigado a curiosidade e o fascínio de todos quantos o lêem, desde os meros leitores, até aos profissionais que de um modo ou de outro se ligam à actividade da leitura.
Neste texto, Borges apresenta-nos um arquétipo de biblioteca, não só do ponto de vista físico, como organizacional. A sua proposta de biblioteca recorda-nos a figura geométrica do fractal, que se estende até ao infinito, através de inúmeros desdobramentos sequenciais. Assim, podemos considerar a biblioteca como uma figura natural, capaz de se desdobrar de modo a comportar qualquer crescimento e evolução do conhecimento.
Do ponto de vista organizacional, Borges coloca a tónica na figura do bibliotecário, esse mediador entre o leitor e o caos de informação. Assim, o bibliotecário é o ser que mais se aproxima de um estatuto divino, pois é o único que consegue impor qualquer ordem ou sentido ao caos primordial. É a este que cabe organizar, difundir, mas também seleccionar a informação, o que faz dele também um censor poderoso. O bibliotecário é o arqueólogo da informação, pois está nas suas mãos a possibilidade da descoberta da informação que se julga perdida, um tesouro que tanto pode revelar a pedra filosofal, como a panaceia ou quem sabe a origem do tempo.
Deste modo, a Biblioteca de Babel, resultante de vários saberes, culturas e conhecimentos, revela-se também ela um enigma. Quiçá a verdadeira caixa de Pandora.

13.12.08

Referências Culturais à Biblioteca

Algumas sugestões pessoais, após desafio feito em aula.

Literatura
FERREIRA, Vergílio – Para Sempre, Bertrand Editora, (1983) 1996
SARAMAGO, Rui Miguel – A Escrita Efémera, Crónica de um Descalabro, Círculo de Leitores, 2002.
VERÍSSIMO, Luis Fernando – Mar de Palavras in A Eterna Privação do Zagueiro Absoluto, Objectiva, 1999

Cinema
Os Livros de Próspero, de Peter Greenway (baseado na peça A Tempestade, de Shakespeare)
http://www.youtube.com/watch?v=cTWWz9xfh8c
O Livro de Cabeceira, de Peter Greenway
http://www.youtube.com/watch?v=n1nUBjk5V-s&feature=related

Blogues
O Bibliotecário de Babel
http://bibliotecariodebabel.com/
O Silêncio dos Livros
http://osilenciodoslivros.blogspot.com/

11.12.08

BOOK QUIZ


You're Siddhartha!

by Hermann Hesse

You simply don't know what to believe, but you're willing to try anything once. Western values, Eastern values, hedonism and minimalism, you've spent some time in every camp. But you still don't have any idea what camp you belong in. This makes you an individualist of the highest order, but also really lonely. It's time to chill out under a tree. And realize that at least you believe in ferries.

Take the Book Quiz at the Blue Pyramid.

10.12.08

Diálogo telemobilistico

- Deu-me o número de telemóvel.
- Hum, e já ligaste?
- Não.
- Fizeste bem. Liga amanhã. Deixa-o um pouco em banho-maria.
- Não sei se vou ligar.
- Se não ligares, liga ele e é sempre melhor sermos nós a tomar a iniciativa. Já sabes, o ataque é a melhor defesa.
- Ele não vai ligar.
- Não lhe deste o teu número?
- Não.
- És sempre a mesma.
- Já sabes que não gosto de dar o meu número.
- Mas que mal é que tem?
- Para ti nenhum, mas não gosto.
- Ás vezes não percebo para que é que queres um telemóvel, se por tua vontade nunca dás o número a ninguém, nem que seja por educação. Quando alguém te dá o número, retribuis.
- Sim, retribuo quando considero que devo, não só porque é suposto.
- Agora deve estar a pensar que não queres nada com ele.
- Que esteja, assim quando lhe ligar apanho-o de surpresa.
- Isso, se…
- Pois, se… devia não é?
- Claro que deves. Pensa bem, o pior que pode acontecer é ser um bocado parvo. Vês o que é que dá e depois manda-lo à vida. Se quiseres até o faço por ti.
- Eheheh. Não é preciso, se há coisa em que sou boa é em mandar um tipo à vida. Fosse eu metade tão boa no resto e não estávamos aqui a falar de números de telemóvel.
- É verdade. E não é tarde, nem é cedo. Vais ligar agora mesmo.
- Aqui? Agora? Não vou nada.
- Vais sim, para eu ter a certeza.
- Isso é que não vou. Já não gosto de o fazer e com público ainda menos.
- E quem me garante que lhe ligas.
- Eu.
- Pois, pois.
- Olha, posso até ser medrosa, mas não sou mentirosa.
- Lá disso, não nos podemos queixar. Prometes então?
- Sim, prometo.
- Ok, então bora lá beber um copo antes que te dê um treco só de pensar em fazer um telefonema. Há gente com muita fobia, mas olha que tu, vai lá vai!
- Pois, faz parte do meu charme…
- Pois, pois.

8.12.08

Sinto a tua mão

Sob o meu seio

Amparando o meu desejo

Encetando nos meus lábios

A sede que só os teus saciam

Como pode este calor gerar

Tanto liquido que entre nos se permuta

Saliva, suor, sémen,

Calor liquido que brota sem secar.

7.12.08

Palavras #125 a 127

Dura-mater - do Lat. dura, dura + mater, mãe. s. f., a externa e mais forte das três membranas (meninges) que envolvem o eixo nervoso encéfalo-medular.

Aracnóide - do Gr. aráchne, aranha + eîdos, semelhante. adj. 2 gén., semelhante à aranha ou à sua teia; s. f., membrana serosa delicada e transparente (meninge) que reveste o cérebro e a medula espinal e fica entre a pia-mater e a dura-mater; s. m., Zool., qualquer animal pertencente à classe dos aracnídeos.

Pia-mater - do Lat. pia, piedosa + mater, mãe. s. f., Anat., a membrana mais interna das que envolvem o aparelho cérebroespinal.

6.12.08

EMS – Eco Museu do Seixal

O EMS é composto por vários núcleos e extensões museológicas em que se procura preservar e divulgar as actividades económicas e culturais características deste concelho, como a pesca, a moagem, a indústria corticeira e de pólvoras, entre outras. Assim, este é um interessante exemplo de como o património concelhio pode ser conservado, contextualizado e apresentado ao público de uma forma aparentemente simples, mas eficaz e interessante.

5.12.08

O desafio da biblioteca actual

O tempo do livro é o tempo da morte e nós estamos vivos e cheios de coisas a fazer. O tempo do livro é o da imaginação trabalhosa e nós estamos cheios de realidade. Descreve esta sala e vê o tempo que se leva, tu a escreveres e eu a ler. Mas eu olho para a sala e sei logo tudo. O tempo do livro é o do carro de bois. Tenho mais que fazer.

Vergílio Ferreira, Para Sempre, p. 106.

É inquestionável que a biblioteca tem, ao longo das últimas décadas, alterado a sua oferta ao público, seja pelos novos suportes de informação existentes, seja pelo tipo de actividades apresentadas, Comummente considerada como o local dedicado ao livro, é também notório que este novo tipo de oferta tem desviado alguma da atenção que há alguns anos atrás lhe era exclusiva.

Assim, a questão que se coloca é se ainda podemos falar de biblioteca? Se sim, é evidente que esta ganhou uma nova acepção. Se não, devemos considerar antes estes espaços como mediatecas, já que media designa genericamente qualquer tipo de suporte pelo qual é veiculada informação. Para responder a esta questão, há que percepcionar o que realmente atrai os utilizadores a estes espaços.

Podemos considerar que o livro ainda é a principal oferta de uma biblioteca. No entanto, serviços como o acesso gratuito à internet, actividades lúdico-pedagógicas e outros suportes de informação estejam a registar um significativo aumento de procura. E esta situação tenderá a manter-se num futuro próximo.

Igualmente num futuro não muito remoto, o papel do livro na biblioteca poderá ser, não o seu maior atractivo, mas o maior pretexto para todas as outras ofertas existentes. Afinal, a internet permite o acesso à informação on-line, o filme é uma adaptação da obra, o debate é uma homenagem à obra ou ao autor, e a animação é baseada numa história. Assim, talvez o maior desafio da biblioteca seja exactamente esse: o de que o livro assuma novamente o protagonismo deste espaço, oferecendo ao leitor uma experiência feita à sua medida e ao seu tempo.

4.12.08

A mão assassina
Incendiou o centro do meu peito
O fogo lavrou, como pode
Até cada extremidade
Queimou o desejo e a vida
Fico agora
Monte de cinza ao vento
À espera que a brisa
Acalme este ardor.
Adelaide Bernardo

2.12.08

Saber Amar

saber sorrir,
a um desconhecido que passa,
sem guardar algum traço,
senão o do prazer
saber amar
sem nada esperar em retorno,
nem respeito, nem grande amor,
nem mesmo a esperança de ser amado,

mas saber dar,
dar sem tomar,
nada fazer senão aprender
aprender a amar,
amar sem esperar,
amar tudo o recebido,
aprender a sorrir,
apenas pelo gesto,
sem ver o resto
e aprender a viver
e seguir.

Saber esperar,
gostar dessa felicidade plena
que nos dão por engano,
tanto que não a esperamos mais.
Se ver e crer
Para enganar o medo do vazio
enraizado como tantas rugas
que marcam os espelhos.

saber sofrer
Em silêncio, sem murmúrios,
Nem defesa, nem armadura
Sofrer de querer morrer
E erguer-se
Como renascida das cinzas,
Com tanto amor a oferecer
Que riscamos o passado.

aprender a sonhar
A sonhar por dois,
Nada como fechar os olhos,
E saber dar
Dar sem rasura
Nem desmesura
Aprender a ficar.
Ver até ao fim
Ficar apesar de tudo,
Aprender a amar,
E seguir,
E seguir…
Lionel Florence & Pascal Obispo, Savoir Aimer