Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois

Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois
Mais informações: www.cm-sintra.pt

9.4.08

A especificidade e identidade histórica portuguesa

Tentar perceber quais os traços específicos da identidade histórica portuguesa são os propósitos de Joaquim de Carvalho e Joaquim Barradas de Carvalho no textos “Os Descobrimentos e a acção colonizadora dos portugueses como factor do progresso cientifico e da civilização”* e “A la recherche de la spécificité de la Renaíssance Portugaise”**, respectivamente.

Como factor característico, Joaquim Barradas de Carvalho aponta o domínio que as actividades marítimas tiveram na vida nacional devido à localização geográfica do país que sempre permitiu manter um contacto marítimo quer com o Mediterrâneo, quer com os países do Norte da Europa. É esta prática que vai impulsionar os Descobrimentos e marcar a postura portuguesa de colonização, “une expansion du commerçant, une expansion qui serait beaucoup plus pacifique et commerciale”, por oposição à espanhola, “une expansion para la conquêtê” (p. 783). Tendo a expansão nacional sido mais pacifica e marcadamente comercial, visando sobretudo a troca de bens e o estabelecimento de acordos com os povos autóctones, esta possibilitou um contacto directo com gentes e costumes locais e é esta apreensão do outro que vai possibilitar uma mudança de mentalidades que mudará para sempre o modo como o homem percepciona o mundo, como constata Joaquim de Carvalho: “… o domínio de regiões e de povos remotos, deixaram sempre sulcos, mais ou menos profundos, na concepção do mundo e no acervo do saber, quer negativamente, …, quer positivamente…” (p.341).

Ambos consideram os Descobrimentos a época mais marcante da história nacional e mundial, e enquanto Joaquim Barradas de Carvalho procura fazer um levantamento interno das suas influências, Joaquim de Carvalho analisa as influências para o resto do mundo deste “… momento único, impossível de se repetir…” (p.342), em que se descobriu uma nova dimensão do mundo e com ela uma nova dimensão de pensamento cientifico e de igualdade humana.

Com base neste conceito de momento único e irrepetível de mudança, é possível estabelecer uma analogia com o momento actual, em que difusão das tecnologias informáticas estão a operar um novo sulco na concepção do mundo pelo Homem. Assim, a internet é o mais recente espaço de cultura que é imperioso compreender e, consequentemente, estabelecer métodos e estratégias de dinamização cultural. Este é o desafio actual.


* CARVALHO, Joaquim. Obra Completa. História da cultura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1982, vol. III, p. 341-353.

** CARVALHO, Joaquim Barradas. A La Recherche da la specifité de la Renaissance Portugaise. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1983, p. 779-794.

7.4.08

Canção do Zéfiro

Dás-me a tua mão para escrever
Apenas um pedaço de perna para morder
Mas o suficiente para fazer voar o meu papagaio
Queres acender uma luz
Olha que está em exposição – para ti
Vem mas não hoje

Conheces o teu oráculo
Tira isso sem nenhum propulsor
Fá-lo está com a Stella
Que maneira de finalmente cheirá-la
Puxa mas não muito forte – para ti
Tira um bocado e passa-o

Voa para longe no meu zéfiro
Sinto-o mais que nunca
E neste clima perfeito
Encontraremos um lugar juntos

Voa no meu vento

Rebelde e libertador
Encontra maneira de ser skater
Embrulha para levita-la
Super amigo aviador
Olha que está em exposição – para ti
Vem mas não hoje

na água onde centro as minhas emoções
Todos me podem ultrapassar
Voa no meu zéfiro
Encontraremos um lugar juntos

vamos viver para sempre

Zephyr Song, Red Hot Chili Peppers

6.4.08

Workshop semântico #19

Exercício 1

O histrião torna venal até o mais reles tugúrio.

Exercício 2

Toda a vida tinha sido passada naquele tugúrio, a que nem os animais se chegavam. Nem como animal era reconhecido, quanto mais como homem.

Não era nenhum histrião, desses que via agir dissimuladamente e sem punição, apenas porque se apresentavam algo cuidados e com sorrisos aparentemente inocentes.

Não havia nada no seu aspecto que aparentasse inocência. Não com uma profunda cicatriz que lhe atravessa o rosto e impõe medo a quem o olha. E ninguém olha duas vezes. Todos julgam que um mero olhar é venal às suas crenças de pureza.

4.4.08

CNB

Como qualquer ser humano, ao possuir um corpo tenho noções de linguagem corporal, mesmo quando se fala de dança. No entanto, cada estilo de dança tem um código próprio de movimento e intenções por vezes imperceptíveis a quem não domina esse código. A dança contemporânea não foge à regra.

A Companhia Nacional de Bailado apresenta três composições de diferentes coreógrafos e com acompanhamentos musicais distintos. Mas sendo uma apresentação conjunta, coloca-se a questão de encontrar um fio condutor ou de união dos três momentos. Daí, que este seja um espectáculo no feminino. O primeiro momento reportará à adolescência em que os movimentos parecem denotar uma procura de identificação quer através da experiência individual quer pela imitação dos outros. Com ritmos que lembram o flamengo e o sapateado e o desenho de luz, em claro escuro ajuda a construir uma linguagem cinematográfica, relembram os antigos filmes slapstick. O segundo momento seria o do primeiro amor, na sua delicadeza e entrega. Já o último momento seria a representação da mulher nas suas vertentes de sensualidade, paixão e desejo, numa celebração da vida.

Sendo este um espectáculo pensado para itinerância é legitimo fazer um exercício mental de adaptação a salas com características técnicas diferentes da Sala Camões. Aliás, seria interessante adaptar o espectáculo a, por exemplo, um anfiteatro, que implicaria uma adaptação de luzes. Ou até em apresentações ao ar livre no período estival.

3.4.08

Desmundo


Inicialmente, a colonização do Brasil foi feita exclusivamente no masculino. Chegadas as primeiras naus e construídas as primeiras aldeias e chácaras, os colonos necessitaram de mulheres para constituir família e assim assegurar a continuidade da exploração do território. Era prática frequente solicitar aos responsáveis do reino o envio de noivas. Estas eram usualmente órfãs ao cuidado dos vários conventos existentes no país, que assim embarcavam numa viagem sem regresso rumo ao desconhecido. Uma dessas jovens é Oribela. Obrigada a casar com um homem mais velho que conhece no momento do casamento, vai tentar por tudo libertar-se desse mundo com regras próprias.

Este Desmundo é uma cuidada reconstituição de um período do qual usualmente não há uma perspectiva feminina. É também um exemplo muito interessante de reconstituição linguística.

2.4.08

Gostaria que a chuva levasse as minhas lágrimas, lavasse a minha alma, obliterasse a minha dor.

Mas as lágrimas misturam-se na chuva dançando pelo meu corpo, perpetuando-se, anulando-se. Hidratando o meu corpo. Alimentando-o do que quero expulsar.

Absorvo as minhas lágrimas, reintegro-as na dor que queria expulsa.

Não há depuração possível.

31.3.08

Saldos Literários

Rosa Lobato Faria, A Flor do Sal
Gabriel Garcia Marquez, Horas más
Ismael Kadaré, Le Sucesseur
José Luís Peixoto, Antídoto
Germano Almeida, O Testamento do Sr. Napumuceno da Silva

30.3.08

Palavras #71 a 73

Tugúrio - do Lat. Tuguriu. s. m., habitação rústica; choça; abrigo; refúgio.
Venal - do Lat. vena, veia. adj. 2 gén., venoso. do Lat. venale, vendível. adj. 2 gén., que se vende ou se pode vender; fig., que se deixa peitar, subornar ou corromper.
Histrião - do Lat. Histrione. s. m., ant., bobo, palhaço; fig., homem hipócrita, abjecto pelo seu procedimento; charlatão; comediante; vil, farsante.

28.3.08

Oliva Guerra, quem é?

A Câmara Municipal de Sintra instituiu em 1992 o Prémio Literário Oliva Guerra que permeia trabalhos de poesia inéditos de autores nacionais. Este prémio homenageia Oliva Correia de Almada Meneses Guerra, nascida no Concelho, e em cuja obra como poetisa, musicóloga e cronista procurou não só contribuir para a vida cultural do concelho, mas também promovê-lo além fronteiras.
Das suas várias actividades destaca-se o seu trabalho como presidente do conselho director do Instituto de Sintra, que em conjunto com a Câmara Municipal de Sintra era responsável pela dinamização cultural do concelho, e a edição, de autor, dos livros Passos ao Longe e Roteiro Lírico de Sintra, bem como a sua actividade de cronista em jornais como o Diário de Lisboa. No âmbito das suas várias actividades, conviveu com outras personalidades locais como a Condessa do Cadaval, mais conhecida como Olga Cadaval, o compositor Viana da Mota e o poeta Nunes Claro.

27.3.08

24.3.08

Sempre Jovem

Dancemos em estilo, dancemos por um bocado
O Céu pode esperar enquanto admiramos os céus
Esperançados no melhor mas esperando o pior
Lançarão a bomba ou não?

Deixem-nos morrer jovens ou viver para sempre
Não temos o poder mas nunca dizemos nunca
Sentados numa duna, a vida é uma viagem curta
A música é para o homem triste

Consegues imaginar quando esta raça for vencida?
Virar as nossas faces douradas para o sol
Louvando os nossos lideres entramos em sintonia
A música é tocada pelo louco

Sempre jovem, quero ser sempre jovem
Queres realmente viver para sempre?
Para sempre, ou nunca

Sempre jovem

Alguns são como a águas, outros como o calor
Alguns são uma melodia e outros são o ritmo
Mais tarde ou mais cedo desaparecerão
Porque é que não permanecem jovens?

É tão difícil envelhecer sem causa
Não quero perecer como um cavalo em queda
A juventude é como diamantes ao sol
E os diamantes são para sempre

Tantas aventuras não poderiam acontecer hoje
Tantas canções que esquecemos de tocar
Tantos sonhos que balançam no ar
Deixamos concretiza-los
forever young, Alphaville

23.3.08

Workshop semântico #18

Exercício I
Afinal, aquele não era um vulgar aranzel de bibliotecário, datado da época medieval. Era sim um poderoso feitiço, só perceptível pelo olhar basilisco de quem ousava, voluntária ou inadvertidamente, lê-lo em voz alta.
Exercício 2
Jonatas encobriu-se o melhor possível tentando disfarçar o basilisco que transportava consigo ao atravessar a alfandega e parando para pagar o aranzel. O seu nervosismo atingiu o nível em que sentia a ptose dos seus órgãos internos.

22.3.08

Perdidos e Achados – Chuva de Estrelas

O Chuva de Estrelas marcou uma geração televisiva que transportou as promessas de um festival da canção para um concurso que oferecia imitações perfeitas, o glamour associado às estrelas imitadas e a surpresas das transformações.
O Perdidos e Achados da SIC foi procurar os vencedores das várias edições, hoje quase todos no anonimato, para tentar perceber quais eram as suas expectativas quanto ao concurso.
Constata-se que ganhar um galardão não é garantia de uma carreira na música. Apesar de quase todos continuarem ligados à música, a maioria não consegue viver dela. Aliás, dos vencedores, apenas Sara Tavares, da primeira edição, tem hoje uma carreira consolidada como artista. Depois, há um grande leque de não vencedores que tiveram ali a sua rampa de lançamento, como por exemplo João Pedro Pais e Jacinta.
Aliás, como alguns participantes salientaram, o concurso premiava imitações e foram as imitações que ganharam e não as capacidades artísticas de cada um.

21.3.08

CSI Gólgota

A Bíblia, como construção literária, transmite alguns pormenores imprecisos, prestáveis a várias interpretações. Um dos episódios marcados por imprecisões é o da morte de Cristo, como retratado na edição de hoje do Público.
Tendo sido Cristo crucificado, a questão é: como terá realmente morrido? Ou seja, não sendo a crucifixação a causa de morte directa, o que será? O consenso parece recair sobre a asfixia, devido à posição do corpo na cruz, e à contribuição que outros sintomas para uma maior rapidez da morte. Quanto à sua posterior ressurreição, há quem afirme que Cristo não tenha realmente morrido, mas sim entrado em estado de coma devido aos vários ferimentos infligidos.
A maior dúvida que parece assolar quem estuda o tema diz respeito ao modo como este terá sido crucificado. Parece algo consensual que o modo como a iconografia clássica retrata o episódio – com as mãos e os pés pregados - está incorrecta, uma vez que, devido ao seu peso, as mãos se “rasgariam” e a queda do corpo acabaria igualmente por “rasgar” os pés.