Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois

Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois
Mais informações: www.cm-sintra.pt

15.4.12

Je suis comme je suis, Jacques Prévert

Je suis comme ça
Quand j’ai envie de rir
Oui je ris aux éclats
J’aime celui qui m’aime
Est-ce ma faute à moi
Si ce n’est pas le même
Que j’aime chaque fois
Je suis faite comm ça
Que voulez-vous de plus
Que voulez-vous de moi

Je suis faite pour plaire
Et n’y puis rien changer
Mes talons sont trops hauts
Ma taille trop cambrée
Mes seins beaucoup trop durs
Et mes yeux trop cernés
Et puis après
Qu’est-ce que ça peut vous faire
Je suis comme je suis
Je suis à qui me plais

Qu’est-ce que ça peut vous faire
Ce qui m’est arrivé
Oui j’ai aimé quelqu’un
Oui quelqu’un m’a aimée
Comme les enfants qui s’aiment
Simplement savent aimer
Aimer aimer…Pourquoi me questionerJ
e suis là pour vous plaire
Et n’y puis rien changer.

Paroles

14.4.12

SER, Ondjaki

seja ruído
seja beijo
seja voo
seja andorinha
seja lago
seja pacatez da árvore
seja aterragem de borboleta
seja mármore de elefante
seja alma de gaivota
seja luz num olhar
seja um cardume de tardes
e grite: JÁ SOU.

101 poetas: Iniciação à poesia em língua portuguesa.






delinear um plano estratégico


nem todos somos capazes de olhar o futuro e traçar metas de concretização. Quantos de nós olhamos ao redor das nossas atuais situações e projetamos mais além? Mas num período instável e de recessão económica, infelizmente, temos de acautelar determinadas situações e essas passam por manter uma perspetiva sobre novas possibilidades e por delinear metas a atingir, e os seus períodos de concretização.
A quanto tempo devemos definir os nossos planos? Há quem o faça a 10 anos, o que para mim é um período tão extenso que não consigo ter uma imagem de mim tão longe no tempo. No entanto, 3 anos parece-me um período bastante razoável, não demasiado longo que se torne abstrato, nem demasiado curto que só permita delinear objetivos de curto prazo.
É claro que existem imponderáveis, mas esses eventuais tropeços não impedem que delineemos objetivos, que até podem muito bem ser a nossa tábua de salvação em caso colapso.  
Em termos organizacionais, 3 anos pode até ser um período demasiado curto ppara se ponderar. Não é à toa que, por exemplo, na política, os mandatos sejam de 4 ou 5 anos. É que além de idealizar objetivos, é também necessário tempo para proceder à sua concretização ou implementação, dependendo da dimensão dos mesmos.

13.4.12

VIDA TODA LINGUAGEM, Mário Faustino

Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem,
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará – oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias.
Vida toda linguagem –
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
E deus talvez, e nada
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno, con-
[tra a chuva,
tenta fazê-la enterna – com se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.

Cotovia, Deszo Kosztolanyi

Este é daqueles livros ao qual não teria chegado se não fosse por intermédio de um Clube de Leitura, neste caso do Museu Ferreira de Castro, e foi uma agradável descoberta. Escrito na década de 20 do século passado, retrata uma semana na vida de uma família húngara no final do século 19.
A vida desta família, constituída pelo casal e uma filha, é condicionada pelo fato da sua única filha, aos 35 anos, se manter solteira e, devido à sua feiura, serem nulas as hipóteses de casar. Mas, durante uma semana, os seus hábitos são alterados pela viagem de Cotovia, a filha, a casa de familiares. Durante esse período, os pais usufruem de uma inusitada liberdade e o autor proporciona-nos, de modo simples e irónico, algumas reflexões sobre o peso das perspetivas familiares e das expetativas sociais, do papel da mulher e dos “velhos”, de dinâmicas familiares, do vazio e da possibilidade de mudança.

12.4.12

Procurado (2008)


É inquestionável o impato de MAtrix na história do cinema, pelas influências que deixou em produções subsequentes, mesmo em géneros que não a ficção cientifica. É o caso deste Procurado, que funde a estética de movimento de MAtrix, o thriller de espionagem e o western. O que fica é uma miscelânea anedótica que vale apenas pelos nomes de cartaz e como veículo de promoção da versatilidade de James McAvoy.

Título original: Wanted * Realização: Timur Bekmambetov * Argumento: Michael Brandt e Derek Haas * Elenco: Angelina Jolie, James McAvoy, Terence Stamp Morgan Freeman

BEM NO FUNDO:, Paulo Leminski

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

11.4.12

SÃO AS MULHERES QUE, Bénédicte Houart


são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia

Bénédicte Houart, julho de 2010 © Bénédicte Houart; poema inédito, traduzido no portal «Poems from the Portuguesese» (D.R.)




Gracmor


As minhas várias deambulações internauticas permitiram-me ficar a conhecer o trabalho do pintor mexicano Gracmor, cujo estilo aprecio devido à sua utilização da cor, das linhas estilizadas e do preto como elemento a lembrar o vitral. Recomendo a visita ao seu blogue, para melhor conhecerem o seu trabalho:

Vida e Cor, Gracmor

10.4.12

ALGUNS GOSTAM DE POESIA, Wisława Szymborska

Yulia Gorodinski
Alguns —
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve,
e os próprios poetas
serão talvez dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia —
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.



Identidade Secreta (2011)


Se aparentemente a saga Jason Bourne já deu o que tinha a dar, eis que surge este Abduction, cujo título em português é homónimo ao primeiro episódio da saga Bourne, e cujo enredo ironiza exatamente com as parecenças físicas entre Taylor Lautner e Matt Damon. E como já havia vaticinado, este poderá muito bem ser o Bourne Pregnancy.
A história é simples: um jovem encontra uma fotografia sua num site de crianças desaparecidas e descobre que a sua vida tem mais que se lhe diga. Afinal, os seus pais biológicos são agentes infiltrados da CIA e, por isso, a sua vida corre perigo. Juntamente com a namorada, vai sobreviver a ataques inusitados, fazendo uso da sua formação desportista, e quase conhecer o seu pai, ajudando, pelo meio, a desvendar a toupeira existente na CIA. O final fica em aberto para novas aventuras, especialmente dedicadas a fãs das aventuras vampíricas de Lautner.

Título original: Abduction * Realização: John Singleton * Argumento: Shawn Christensen * Elenco: Taylor Lautner, Lily Collins, Maria Bello, Sigourney Weaver e Alfred Molina

9.4.12

Era manhã de setembro, Carlos Drummond Andrade

De Immitatie, Eddy Stevens
Era manhã de setembro
e
ela me beijava o membro

Aviões e nuvens passavam
coros negros rebramiam
ela me beijava o membro

O meu tempo de menino
o meu tempo ainda futuro
cruzados floriam junto

Ela me beijava o membro

Um passarinho cantava,
bem dentro da árvore, dentro
da terra, de mim, da morte

Morte e primavera em rama
disputavam-se a água clara
água que dobrava a sede

Ela me beijando o membro

Tudo o que eu tivera sido
quanto me fora defeso
já não formava sentido

Somente rosa crispada
o talo ardente, uma flama
aquele êxtase na grama

Ela a me beijar o membro

Dos beijos era o mais casto
na pureza despojada
que é própria das coisas dadas

Nem era preito de escrava
enrodilhada na sombra
mas presente de rainha

tornando-se coisa minha
circulando-me no sangue
e doce e lento e erradio

como beijara uma santa
no mais divino transporte
e num solene arrepio

beijava beijava o membro

Pensando nos outros homens
eu tinha pena de todos
aprisionados no mundo

Meu império se estendia
por toda a praia deserta
e a cada sentido alerta

Ela me beijava o membro

O capítulo do ser
o mistério de existir
o desencontro de amar

eram tudo ondas caladas
morrendo num cais longínquo
e uma cidade se erguia

radiante de pedrarias
e de ódios apaziguados
e o espasmo vinha na brisa

para consigo furtar-me
se antes não me desfolhava
como um cabelo se alisa

e me tornava disperso
todo em circulos concêntricos
na fumaça do universo

Beijava o membro
beijava
e se morria beijando
a renascer em setembro

Imortais (2011)


Este filme é uma adaptação feita pela equipa que produziu 300 de alguns episódios e personagens da mitologia grega sintetizados na figura de Teseo e do seu combate contra o rei Hipérion.
Teseu é um humilde lavrador escolhido por Zeus, que sob disfarce é seu mentor, para defender o povo grego do ataque do rei Hipérion, que pretende destruir a humanidade através da libertação dos titãs, raça de antigas divindades, aprisionada no mundo subterrâneo sob o Monte Tártaro. Com um visual gráfico próximo de 300, apresenta um enredo coerente, embora não fiel aos relatos míticos existentes, o que resulta num filme interessante e num bom produto de entertenimento.

Título original: Immortals * Realização: Tarsem Singh * Argumento: Charley Parlapanides, Vlas Parlapanides * Elenco: Henry Cavill, Mickey Rourke, Stephen Dorff, Freida Pinto, Luke Evans e John Hurt

8.4.12

COM UNHAS E DENTES, Luís Filipe Parrado

Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.



Um Grito de Coragem (1988)


No início da década de 1980, durante umas férias familiares de campismo, um jovem casal vê a sua filha mais nova, de apenas 2 meses, ser levada por um dingo. Sem o corpo alguma vez ter sido encontrado, e com a ciência forense não tão evoluída, depressa as suspeitas recaem sobre a mãe, Linny Chamberlain, que rapidamente é considerada culpada pela opinião pública. Sob uma tremenda exposição mediática, o casal, adventista do sétimo dia., enceta um longo e controverso processo para comprovar a sua inocência, que só viria a ser reconhecida quase uma década mais tarde.
Realizado em 1988, este filme valeu a Meryl Streep uma nomeação aos Óscares, pela sua interpretação de Linny Chamberlain, uma mulher pouco expressiva, que não Grangeia a simpatia pública, e extremamente lúcida e inteligente para perceber que é considerada culpada pela opinião pública.
Uma aposta interessante e bem conseguida, é intercalação da apresentação dos fatos com as conversas de anónimos de todos os estratos sociais e de vários pontos do país, com as suas opiniões e juízos sobre os acontecimentos e as subsequentes tomadas de posição.
Ao ver este filme só agora, é impossível não comparar este com o caso Maddie, que quase parece uma cópia. As suas incoerências, dúvidas e postura dos pais apaixonaram a opinião pública que na sua maioria imputa culpa aos pais, mas cuja verdade talvez nunca venhamos a saber. A única verdade é que todos somos anónimos com opiniões formadas com base no mediatismo do caso, cuja proximidade com a realidade talvez seja nenhuma.

Título original: Evil Angels * Realização: Fred Schepisi * Argumento: John Bryson e Robert Caswell * Elenco: Meryl Streep, Sam Neill e Dale Reeves

7.4.12

Jordi Nadal

Há uns tempos, dei com a recomendação de leitura da página pessoal de Jordi Nadal, conceituado editor espanhol, que, além de dar conta do seu percurso profissional, possui uma interessante listagem de leituras recomendadas. Como o que encontramos não deve ficar connosco, aqui fica uma sugestão de visita e de leitura:

www.jordinadal.com

... amor é encontrarmos pessoas estilhaçadas que precisam quem as une.

Ascenção, Patricia Ariel

6.4.12

Sexo, mentiras e despedidas


Não foi um brinco esquecido debaixo da cama que denunciou a tua traição. Nem mensagens inusitadas no Facebook. Sempre foste muito discreto, mas ninguém é perfeito, pelo menos ela não foi.

E posso demorar a ver a realidade, mas uma vez visto, não há como voltar a trás. E, neste caso, também não há desculpas que justifiquem. Não para mim. Não há momentos menos bons. Não há incompreensões. Não há falta de diálogo. Não há querermos coisas diferentes. Nada disso. Há apenas as oportunidades que aproveitas(te), pensando nunca serem descobertas. O que significa apenas que estás longe de ser o homem que quero e que mereço. Por isso, ficamos por aqui. Eu comigo e tu com qualquer dos teus contatos telefónicos, para lá destas portas que se cerraram indubitavelmente para ti.

Esta noite vou chorar, não vou dormir grande coisa. Amanhã acordo com olheiras e um humor de cão. Mas à noite o cansaço vencerá e, depois do sono profundo, acordarei tranquila e pronta para arriscar novos começos. Certa de que cada queda me torna mais forte e do futuro que quero para mim.

Amostra sem valor, António Gedeão

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

in Máquina de Fogo, 1961

5.4.12

Todos os dias, há alguém que chega a esta página pela primeira vez. Demorará uma média de 7 a 10 segundos a decidir se regressará ou não. O meu desafio é: como prender a atenção desse novo visitante sem recorrer a truques baixos, como, por exemplo, o uso abusivo de comentários depreciativos, linguagem sexual explicita, ou a utilização de frases e pensamentos delico-doces para almas carentes e esperançosas.

Desejo que o regresso se deva a uma qualquer identificação com o que escrevo e como o escrevo estes, que mesmo quando o não são, registos pessoais, vivências e aspirações.

Como ser eu e que esse eu faça sentido a tantas e tão diferentes pessoas?