Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois

Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois
Mais informações: www.cm-sintra.pt

5.4.12

DEMOCRACIA, Nuno Júdice

Fui dar com a democracia embalsamada, como
o cadáver do Lenine, a cheirar a formol e aguarrás,
numa cave da Europa. Despejavam-lhe por cima
unguentos e colónias, queimavam-lhe incenso
e haxixe, rezavam-lhe as obras completas do
Rousseau, do saint-just, do Vítor Hugo, e
o corpo não se mexia. Gritavam-lhe a liberdade,
a igualdade, a fraternidade, e a pobre morta
cheirava a cemitério, como se esperasse
autópsias que não vinham, relatórios, adêenes
que lhe dessem família e descendência. Esperei
que todos saíssem de ao pé dela, espreitei-lhe
o fundo de um olho, e vi que mexia. Peguei-lhe
na mão, pedi-lhe que acordasse, e vi-a tremer
os lábios, dizendo qualquer coisa. Um testamento?
a última verdade do mundo? «Que queres?»,
perguntei-lhe. E ela, quase viva: «Um cigarro!»

in A Matéria do Poema, Dom Quixote

4.4.12

SOBRE OS DOIS ADOLESCENTES QUE ESTA TARDE ATRAVESSARAM A RUA DE MÃOS DADAS, Luís Filipe Parrado

Irina Kotova
Foi depois do fim das aulas.
Passaram o portão de ferro da escola
e deram as mãos
para atravessarem a rua.
E, de mãos dadas, formaram
uma corrente
tão poderosa, tão compacta,
que o trânsito teve mesmo de parar
e ficou completamente imobilizado. Não vou ceder
agora à tentação
de afirmar que assisti
à materialização de um milagre,
afinal é coisa
que deve estar sempre a acontecer,
em algum lugar, ao fim
da manhã ou da tarde, logo
depois das aulas,
dois adolescentes dão
as mãos, atravessam a rua, bloqueiam
a circulação rodoviária
de uma cidade.
Mas pensa nisso por um segundo,
pensa na força dessa corrente.

2000 Posts

Quem diria?

3.4.12

COITO, Ferreira Gullar

Todos os movimentos
do amor
são noturnos
mesmo quando praticados
à luz do dia

Vem de ti o sinal
no cheiro ou no tato
que faz acordar o bicho
em seu fosso:
na treva, lento,
se desenrola
e desliza
em direcção a teu sorriso

Hipnotiza-te
com seu guizo
envolve-te
em seus anéis
corredios
beija-te
a boca em flor
e por baixo
com seu esporão
te fende te fode
e se fundem
no gozo
depois
desenfia-se de ti
a teu lado
na cama
recupero minha forma usual.

Christian Weisz
Há muito que consigo fazer sozinha, mas não consigo fazer tudo o que quero. Para isso, tenho de me rodear das pessoas que podem partilhar o percurso e objetivos comigo.


Sozinhos conseguimos o que podemos, juntos conseguimos tudo.

2.4.12

DEFEITO DE FABRICO, A. M. Pires Cabral

Quando nasci, trazia de origem
um farol que despejava luz a jorros
sobre o que quer que fosse,
mormente sobre as dobras
pérfidas da noite.

Mas, por estranho que pareça,
também os faróis estão sujeitos
às leis da erosão,
e o meu farol deliu-se. Hoje não é
mais do que um triste farolim de bicicleta
que apenas me alumia dois palmos de noite.

Amanhã estará reduzido
a uma simples lanterna de bolso
com que mal poderei reconhecer
o lugar onde estou.

Até que um dia será, está bom de ver,
o mais fiável cúmplice da noite –
– da noite que devia dissipar,
e não fundir-se nela.

Defeito de fabrico.
Mas a garantia caducou e o fabricante
nega-se a ressarcir-me do escuro.

Yeong-Deok Seo
Quando sentimos que estagnamos, é porque paramos de lutar ou porque deixamos de ter objetivos. Parte de nós combater a estagnação, delinear novos objetivos, alterar rotinas dentro das rotinas, seguir em frente, mesmo quando é necessário um recuo.

1.4.12

UM SORRISO, Ferreira Gullar

Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas

quando
com o meu aceso archote e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?

que busco eu
em fogo
aqui embaixo?
senão colher com a repentina
mão do delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?

Alberto Emiliano Saveso

Para celebrar Abril...


…Um poema por dia!

30.3.12

Castelo de S. Jorge


Visitar o Castelo de S. Jorge é uma oportunidade de conhecer duas perspetivas únicas sobre Lisboa. A primeira, através das ameias, a segunda, através do periscópio de Ulisses, uma tecnologia desenvolvida por da Vinci e que permite visionar a cidade em tempo real, fazendo inveja a qualquer Google earth. Para conhecer há também o núcleo arquológico, com o seu bairro muçulmano e a judiaria, e a própria construção, com a sua estrutura e função bélicas, imaginado como seria a vida entre muralhas.

29.3.12

Quanto custa uma mulher ser bonita?


Há falta de dinheiro, sou uma low maintenance woman e sem grandes predicados de beleza. Como alguém alguma vez disse: não há mulheres feias, há mulheres pobres. Para comprová-lo, basta recorrer ao preçário de um qualquer cabeleireiro de bairro e fazer as contas. Entre Manicure/pedicure, Corte de cabelo/brushing, Depilação/outros quês, não há bolsa que resista. A beleza é um grande investimento e não é para todos.

28.3.12

Hairspray (2007)


Uma jovem decide cumprir o seu sonho: tornar-se bailarina num popular programa musical da década de 1950. Mas para o conseguir tem de vencer vários preconceitos e estereótipos sociais. É que a jovem em causa tem excesso de peso e pelo seu corpo fluem os ritmos dos rock negro.
Esta nova versão do filme homónimo de John Waters (1988), surpreende ao juntar, nos papéis dos pais da jovem, dois dos mais míticos bailarinos vivos do cinema: John Travolta e Christopher Walken, célebres por Febre de Sábado à noite e e pelo vídeo de Fatboy Slim "Weapon of Choice", respetivamente.

Realização: Adam Shankman * Argumento: Leslie Dixon, John Waters (1988) * Elenco: John Travolta, Queen Latifah, Zach Efron, Christopher Walken, Michelle Pfeiffer, Amanda Bynes, James Marsden e Nikki Blonsky

27.3.12

Sobre bullying


Quem somos nós para dizer que não somos bullies? Quando é que – julgando que não – magoámos em palavras, actos e omissões?
Caixa d’óculos, favolas, baleia. São só algumas da palavras que abalaram a minha auto-estima. Não quando proferidas por estranhos na rua, mas sim quando proferidas por aqueles que, ao gostar de nós, deveriam ser superiores e não mencioná-las. E não há tom de brincadeira que o valha.
Acreditem, mais do que ninguém, sabemos que não correspondemos a uma “norma”, mas isso não significa que sejamos constantemente perseguidos, fazendo-nos escravos de modas, conceitos estéticos e materiais.
Somos os primeiros a sofrer o impacto de quem nos rodeia. Cabe-nos também ser os primeiros a quebrar este ciclo e a não reproduzir qualquer padrão de comportamentos a que tenhamos sido sujeitos, memso que escondido sob uma capa da carinho e/ou chamada de atenção. Se fomos vitimas, não sejamos perpetradores.
Quebremos o círculo!

26.3.12

Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo (2010)

Esta é a adaptação ao grande ecrã do famoso jogo de PC, com um enredo palaciano muito shakesperiano. Em pleno deserto, o rei da Pérsia vê a sua coroa desejada pelo irmão (so Hamlet) e defendida pelo filho adotado, o primeiro a aperceber-se da subtil aspiração ao poder. Pelo meio, há a princesa de uma cidade mítica, guardião das areias do tempo, artefacto a que o tal irmão pretende recorrer para voltar atrás no tempo e conseguir a tão desejada coroa.
Filme para domingo à tarde, em que Sir Bem Kingsley demonstra uma vez mais a sua eficácia e Jake Gyllenhaal parede deslocado.

Título original: Prince of Persia: The Sands of Time * Realização: Mike Newell * Argumento: Boaz Yakin e Doug Miro * Elenco: Jake Gyllenhaal, Gemma Arterton, Ben Kingsley e Alfred Molina

25.3.12

A Sombra de Um Génio (1996)


A Sombra de Um Génio PosterA Sombra de Um Génio é o retrato da industrial musical americana da década de 1960, através da vida e obra da compositora fictícia Denise Waverly. Com aspirações a cantora, Denise rapidamente abdica desse sonho para se tornar numa das mais emblemáticas compositoras, ao mesmo tempo que se dedica a várias relações falahadas e à maternidade, num percurso de crscimento que lhe irá permitir, anos mais tarde, singrar, finalmente, como cantora.
Filme interessante pela recriação de época e da industria.

Título Original: Grace of My Heart * Realização e Argumento: Allison Anders * Argumento: Illeana Douglas, John Turturro, Eric Stoltz, Bruce Davison, Patsy Kensit, Chris Isaak, Bridget Fonda, Matt Dillon e Sissy Boyd

24.3.12

Outra pausa
Olhar atrás, olhar em frente
Outra trajetória
Para o mesmo rumo
Além do horizonte
Invisível aos olhos
Perto do coração

23.3.12

sobre liberdade de expressão

Enquanto indivíduos, temos determinada liberdade de expressão e que assumimos exatamente como individual. Mas enquanto representantes de uma instituição, não temos a mesma liberdade de discurso. Enquanto representante não são os meus valores que defendo (mesmo que iguais aos meus) são os da instituição e, por sua vez, de todos os que a mesma representa. Ao defender valores transversais a demais indivíduos não posso adotar um discurso ofensivo e/ou demasiado irónico, que se torne igualmente ofensivo ou incompreensível.
Isto não implica que como individuo tenha de abdicar da convicção pessoal. Aliás, não devo, nem posso. Implica sim que use cautela, ainda para mais quando há registos desse mesmo discurso. Impõe-me a seriedade que não denigra a instituição e isso faz-se não só através da conduta, como também através do discurso.

22.3.12

Coordenar equipas de trabalho II

O grande desafio de coordenar uma equipa é que nunca há um momento de descanso. E poderíamos pensar que fosse pelo trabalho ou pela tarefas a desempenhar, mas não, é pelas pessoas.
O ideal é que a coordenação seja feita com base na orientação: depois de definidas linhas orientadoras e atribuídas tarefas, os elementos serão responsáveis e autónomas pela sua execução. Quanto à tomada de decisões, deve ser coerente e quando isso não é possível, devemos assumir o seu porquê circunstancial. Mas sem uma comunicação clara, concreta, sem ruídas, e conjunta . sem a necessária explanação de objetivos a atingir, circunstancias e condicionantes, partilha de informação e integração dos indivíduos, não é possível remar no mesmo sentido.
Parece fácil, mas não é. Cada pessoa é diferente e traz consigo diversas experiências, atitudes e conhecimentos. Isso obriga, na maioria das vezes, a um acompanhamento individual, que nem sempre é logisticamente possível.

21.3.12

Ser liderado ou liderar

Sempre me considerei uma boa liderada, sempre que se registem três requisitos: respeitar quem me lidera, perceber o que é esperado de mim (quer em atitudes, quer em funções) e acreditar no trabalho realizado. Quando estes não se cumprem, há várias análises a realizar:
a) Posso mudar as circunstanciais que me rodeiam? E o que estou apta ou disposta a fazer;
b) Mudar de trabalho?
c) Assumir mudanças de funções;
d) Assumir a liderança e agir de modo a que atuem comigo.
Qualquer destas Hipóteses implica sair da nossa zona de conforto, mas, mesmo sem qualquer previsão de vitória, essa pode ser a própria vitória.
Liderar não é ordenar, é, primeiro que tudo, procurar a coesão de uma equipa, assumindo falhas, mas também procurando soluções conjuntas. Depois, liderar é coordenar, perceber as necessidades de trabalho, conhecer os elementos que estão à nossa disposição, delinear uma estratégia e implementa-la, acompanhado as várias fases e processos de execução. Não é uma responsabilidade fácil e que se faça de ânimo leve. Há demasiadas variáveis para conciliar e inesperadas para solucionar, mas o desafio é aliciante e a adrenalina pode tornar-se viciante.