Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois

Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois
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19.7.10


...e inquieto é o meu coração enquanto descansa no teu.

18.7.10

Diálogo cético

- sabes, todas aquelas vidas que achavas estranhas e não compreendias quando eras jovem? Os divórcios, as separações, os encontros agendados, os afastamentos…
- sim, quando tínhamos a ilusão dos contos de fadas, do amor romântico como a solução de todos os problemas e do felizes para sempre? Claro que me lembro.
- às vezes queria regressar a essas expectativas simples, românticas e ingénuas.
- sim, mas por outro lado parece um retrocesso. Agora, que deixámos de acreditar em contos de fadas, já não há volta a dar: somos cépticos convictos.
- diz antes: céticos conformados. Sou cética, mas não tenho prazer em sê-lo. Ainda gostava de manter uma certa inconsciência de juventude, aquele sentir apenas, sem análises, ponderações e medos.

15.7.10

A HORA DO CANSAÇO, Carlos Drummond de Andrade

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
Dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
Numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gosto acre
Na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

13.7.10

Diálogo em fuga


- tens fugido de mim.
- Tenho?
- sabes que sim.
- sim, acho que sim.
- assustei-te. Não estavas à espera de ouvir o que te disse e levantaste o teu campo de defesa. Gostava de perceber porquê. Não esperava que fosse recíproco, não por enquanto, mas também não esperava uma fuga.
- parece que sou especialista em fugas, acabo sempre por fazê-lo.
- mas queres fugir?
- não, mas os meus mecanismos de defesa impelem-me.
- não te vou magoar. Pelo menos intencionalmente, se bem que de boas intenções está o inferno cheio, eu sei.
- sei que não me queres magoar. E não precisas fazê-lo, acredita que consigo fazê-lo muito bem sozinha. Mas sim, as tuas palavras assustaram-me. Adoraria dizer o mesmo, mas não consigo.
- não te peço.
- agora não, mas vais pedir. E não sei se no futuro conseguirei dizê-las. Não te quero magoar, por isso acabo por afastar-me.
- isso é uma atitude covarde.
- sim, seu sei. Mas já me está tão interiorizada que é complicado evitar. Sou a minha pior inimiga.

12.7.10

sabedorias

Porque por norma apenas damos ao outro aquilo que sabemos dar e não aquilo que o outro precisa que lhe demos.
Helena Sacadura Cabral, in Fio de Prumo

11.7.10

O nome dos meus filhos

Sempre imaginei que nome daria aos meus filhos. Poucos me pareciam apropriados e havia sempre algo que desgostava (um som, um sentido).

Agora que finalmente encontrei os nomes desejados, compreendo que o Miguel e a Sofia jamais existirão.

10.7.10

Homenagem a António Lobo Antunes

Não sou leitora de António Lobo Antunes, mas agradou-me a notícia de que será homenageado em França no primeiro semestre de 2011.

A homenagem engloba mais de 50 eventos, entre os quais leituras, conferências, ateliers, instalações e espectáculos, que terão lugar no complexo cultural MC93.

A importância desta homenagem prende-se com a excelente oportunidade para a divulgação de um autor de língua portuguesa e com o eventual factor de contaminação, suscitando a curiosidade sobre outros autores nacionais.

9.7.10

Mesmo a morte passa por ser isso mesmo: as pessoas não desaparecem da nossa vida, desaparece apenas o corpo, o volume. O espaço que ocupam desaparece fisicamente, mas em nós ele pode crescer. Quase sempre cresce, quando as amamos.

8.7.10

Dizem-me organizada.

Não sou.

Aparentemente, talvez, porque planeio a organização: esquemas, agendas, calendários, pastas, dossiês, ficheiros, objectivos, tarefas.

sim, faço tudo isso. Mas sou uma organizadora falhada, porque nunca cumpro a minha organização.

7.7.10

Diálogo (des)interessado

- és uma pessoa interessante.

- obrigada. Não sei se sou, mas tento ser. Ou melhor, pelo menos procuro ser uma pessoa interessada.

- uma pessoa interessada é inevitavelmente interessante.

- discordo. Uma pessoa interessada é meio caminho para ser interessante. No pior dos casos pode ser apenas interesseira.

1.7.10

As pessoas não mudam, 
modificam-se, 
adaptam-se.