Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois

Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois
Mais informações: www.cm-sintra.pt

10.9.12

Bullying

Perseguição
Intimidação
Assédio
Violência
Lifes of Grass, Mathilde Roussel

RAÍZES, OSSOS, José Ricardo Nunes

Sarolta Ban
Parei o carro à beira da estrada
e fui até junto das raízes
e dos troncos há muito apodrecidos.
O rosto do meu pai e essas oliveiras
São imagens que agora se misturam.
Quase que são a minha nova pele.
Espetadas no vazio, as raízes
aguardam por um pouco de terra
que o tempo foi tornando imaginária.
Sinto o gesto alheio no interior dos ossos
e dou-lhe todos os meus ossos.

25-III-00

In: Revista Colóquio/Letras. Poesia, n.º 155/156, Jan. 2000, p. 249-254.

9.9.12


Não há vitórias. Gostava. Ou pelo menos, por mais mesquinho que possa parecer, necessito de uma. Necessito de uma recompensa por tudo o que não consigo fazer, por tudo o que falhei, por tudo o que errei.

AUTO-ESTRADA DO SUL, Henrique Manuel Bento Fialho

A velocidade dos veículos
é proporcional à ânsia de chegar.
Jamais saberemos se os veículos
chegarão à velocidade com que circulam,
mas temos noção de que
em todas as chegadas há uma velocidade
a circular dentro de quem parte.
Uma velocidade conduzida, talvez,
pela vontade de novamente circular
dentro de tudo o que nos impele para o regresso,
dentro de tudo quanto transita,
dentro de tudo aquilo que já não existe.

Kang Duck-Bong

8.9.12

Passageiros (2008)


Na sequência de um acidente aeronáutico  uma psicóloga especializada em situações limites é convocada para acompanhar os sobreviventes. Durante as várias sessões, individuais e em grupo, começa a perceber incoerências nos vários relatos. 
Ao procurar apurar o que realmente aconteceu, descobre uma inesperada verdade.Denunciando já a premissa do filme, é uma interessante abordagem de uma ideia já explorada em O Sexto Sentido, com uma interpretação convincente de Ann Hathaway, uma das mais versáteis atrizes da sua geração.

Título original: Passengers * Realização:  Rodrigo García * Argumento: Ronnie Christensen * Elenco: Anne Hathaway, Patrick WilsonDavid Morse, Dianne Wiest e Clea DuVall

REFÉNS, JR Nunes

Matteo Pugliese
Repetimos os passos,
os mesmos passos do fim
para o princípio. Delapidamos
riqueza: imagem sob imagem
no espelho do quarto, as metamorfoses.
Corpos, uma voz à deriva
por entre amarras e segredos.
Somos reféns.

15-IV-00



7.9.12

Histórias para Adormecer (2008)


Adam Sandler, na sua eterna personagem de adulto que teima em crescer, é, desta feita, responsável por dois sobrinhos (o o porquinho da Índia Bugsy), que o levam a uma inacreditável experiência de faz de conta e a acreditar que os sonhos também se concretizam.


Título original: Bedtime Stories * Realização:  Adam Shankman * Argumento: Matt Lopez e Tim Herlihy  * Elenco: Adam Sandler, Keri Russell and Courteney Cox Guy Pearce Russell Brand Lucy Lawless

A Palavra, Carlos Drummond de Andrade

Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.

 in ‘A Paixão Medida’

6.9.12

Sobre idadismo


Idadismo é uma expressão recente e define-se pela discriminação de indivíduos em função da idade. Em termos europeus, esta é considerada a segunda forma de discriminação mais generalizada. Atinge, sobretudo, jovens e pessoas mais velhas, manifestando-se maioritariamente no mercado de trabalho e refletindo-se nas atuais taxas de desemprego. Segundo o INE, em 2011, o desemprego entre jovens dos 15 aos 24 anos atingiu os 35,4%, número que se prevê aumentar nos tempos mais próximos.

ESTÁTUA GREGA, Wisława Szymborska

Yeong-Deok Seo
Apesar da ajuda das pessoas e de outras forças da natureza,
mesmo assim, o tempo teve muito que fazer.
Primeiro privou-a do nariz, depois dos órgãos genitais,
um a um, dos dedos das mãos e dos pés,
com o decurso dos anos, dos braços, um após outro,
da coxa direita e da coxa esquerda,
das costas e das ancas, da cabeça e das nádegas,
e o que caiu por terra, desfez em pedaços,
cacos, cascalho, areia.

Quando algum dos vivos morre desta maneira,
a cada golpada, muito sangue escorre.

As estátuas de mármore, porém, perecem brancas
e nem sempre até ao fim.

Da estátua, de que aqui se fala, resta o tronco
que, em esforço, parece suster a respiração,
pois agora tem
de atrair
a si
toda a graça e peso
do resto que se perdeu.

E consegue-o,
ainda o consegue,
finge e deslumbra,
deslumbra e perdura –
E, aqui, também o Tempo merece um elogio:
deixou para amanhã
o que podia fazer hoje.

5.9.12

Sobre denúncia


A nossa cultura de brandos costumes leva-nos a não denunciar as mais variadas situações, que enquanto cidadãos temos direito a ver resguardadas.
Criticamos, fazemos conversa de café, mas quantos de nós exige, por exemplo, um livro de reclamações e exerce o seu direito ao bom atendimento.

ABC, Wisława Szymborska

Jackson Pollock
Jamais saberei
o que A. pensava de mim.
Se B. acabou por me perdoar.
Por que razão fingia C. que tudo estava bem.
Qual a quota-parte de D. no silêncio de E.
O que esperava F. se acaso algo esperava.
Por que fingia G. sabendo de tudo.
O que tinha H. a esconder.
O que queria I. acrescentar.
Se o facto de eu estar por perto,
teve algum significado
para J. e K. e para o resto do alfabeto.

4.9.12

Monstros & Companhia (2001)


dois monstros tornam-se os melhores amigos de uma menina, que em vez de monstros vê aventura, surpresa e amizade. O que nos leva a ponderar: e se ao invés de recuarmos perante o que nos provoca medo, o enfrentássemos como uma inesperada aventura?

Esta é uma história de uma amizade conquistada e sincera e sobre vencer medos e conquistar os nossos sonhos em vez de vivermos os papéis que nos julgamos possíveis.

Título original: Monsters, Inc. * Realização: Pete Docter e David Silverman * Argumento: Pete Docter e Jill Culton * Elenco (VO): Billy Crystal, John Goodman Steve Buscemi Jennifer Tilly and Mary Gibbs

da noite dizes que a respiração é hábito, Maria Sousa


da noite dizes que a respiração é hábito
uma ruga a imitar a sombra nasce da cor
que se define em ausências

apago o tempo na cama por fazer
soletro‐te a riscar manhãs da noite
há que respirar com as janelas abertas de par em par
(cheiram ao verde escuro das árvores)



3.9.12

Palavras #296 a 298

barbacã - (talvez do árabe persa barbahhane) s. f. 1. [Militar] Obra de fortificação avançada, geralmente erigida sobre uma porta ou ponte de acesso, que protegia a entrada de uma cidade ou castelo medieval. 2. [Militar] Muro anterior (e mais baixo que as muralhas) para defesa do fosso. 3. [Militar] Fresta aberta na muralha para por ela lançar setas ou fazer fogo. = SETEIRA
açodar - (origem onomatopaica) v. tr. Dar pressa a. Confrontar: açudar.
almadraquexa - (ê) s. f.[Antigo] Travesseiro.

III (Grande Hotel de Paris), Manuel de Freitas

 para a Inês Dias

A morte, claro. Existem porém
dias grandes, irredutíveis a versos,
em que a indecisão da luz
nos açoita de felicidade.

São dias raros, futuras
imagens do nada, o suficiente
para que a palavra amor substitua
o primeiro cigarro da manhã.

Chegámos tarde. O quarto 203
trazia-me de novo o teu corpo.

E até a música dos sinos
vinha deitar-se connosco.

Telhados de Vidro n.º 3 [Último poema do tríptico Passeio Alegre]. Lisboa, Averno, 2004, p. 44.

Música (1895), Gustave Klimt



2.9.12

Palavras #299 a 301

mesnada - s. f. [Antigo] Tropa mercenária.
báculo - s. m. 1. Bordão alto e recurvo na parte superior. 2. Insígnia prelatícia, em forma de bastão, com a parte superior curva. 3. [Figurado] Amparo. 4. [Anatomia] Curvatura da aorta.
linimentos. m. Medicamento untuoso, isto é, para fricções, destinado a acalmar dores. Confrontar: lenimento.

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo

O LIVRO, Jorge Sousa Braga

Há um livro que nunca chegarás
a ler um livro que te escapou

da mão estava exposto na livraria
mas outra coisa chamou a tua

atenção ou alguém o arrumou
em segunda fila na estante…

Tu não o sabes – como o poderias
saber? – mas esse livro descreve

como e quando vais morrer

[in O Novíssimo Testamento e outros poemas, Assírio &Alvim, 2012]

1.9.12

E em setembro, um poema por dia...

Em setembro retornam os livros, os cadernos, as palavras, os lápis e canetas. E há também novas ideias, novos conceitos e a descoberta de novo acasos de beleza, alguns na miragem de um poema por dia.

O amor antigo, Carlos Drummond de Andrade

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.


Willem Dafoe