Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois

Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois
Mais informações: www.cm-sintra.pt

30.4.12

#92 @ 101 em 1001 – Jardins e Palácio de Monserrate


Este é talvez o mais emblemático exemplo do trabalho que a Parques de Sintra Monte da Lua tem vindo a realizar no âmbito da recuperação do património sintrense. Só tenho uma coisa a dizer: fiquei deslumbrada. Aconselho a visita a todos, só assim poderão perceber a magnitude e beleza do trabalho efetuado.
Décio Pignatari

29.4.12

A Vida Paralela, Rui Pires Cabral

Nenhum comboio nos leva
tão longe: uma cidade morta

vive ainda na rara canção.
Escuta as palavras que ensina

e todas as coisas que volta
a mostrar: a noite, o regresso

ao quarto emprestado,
as caves com livros

de Charing Cross Road
e o tempo lá fora

tão frio.

Rui Pires Cabral. Ladrador, Lisboa: Averno, 2012.

Sem tempo (2011)


Num futuro não muito distante, o tempo é a única moeda de troca. O mundo gere-se como um imenso banco de tempo, não do nosso tempo livre, mas de todos os minutos da nossa vida. Assim, a pobreza é de quem tem um tempo limitado de vida e a riqueza de quem tempo para todos os ócios. E, é claro, a disparidade entre uns e outros é imensa.
Este é o cenário propicio para que um casal improvável (a jovem rica e o jovem proletário) se juntem, qual Bonnie e Clyde de nottingham futuristas, para diminuir estas disparidade e destabilizar o sistema vigente. Pelo meio ficam algumas reflexões superficiais sobre o porquê da imortalidade, o que fazer com ela, o que fazemos do nosso tempo, o que valorizamos, procrastinamos porque temos demasiado tempo nas nossas mãos, onde e em que o desperdiçamos, com quem o partilhamos. E não gostando da música de Justin Timberlake, é com agrado que me parece melhor actor do que cantor.

Título original: In Time * Realização e Argumento:: Andrew Niccol * Elenco: Justin Timberlake, Amanda Seyfried, Olivia Wilde, Cillian Murphy e Matt Bomer

28.4.12

PRONOMINAIS, oswalde de Andrade

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
Interrompi a leitura a 13 do 12 de 11 apenas para registar a lápis a data na margem da página 55. Além da capicua da data, pareceu-me interessante fazê-lo num número redondo, dentro de um número redondo.


Não sei que simbologia posso atribuir ao acto, desconheço a linguagem secreta dos números. Apenas vislumbro os significados óbvios do conjunto de letras que leio através dos dicionários. É lá que tento apreender algum sentido para as sequências de letras que diariamente se dispõem perante os meus olhos como que querendo dizer-me algo. E eu não oiço.

Mas continuo, na esperança de que algum dia faça sentido. Um dia ouvirei o murmúrio suave das letras e no seu (en)canto saberei o que sustenta o céu azul, quem ilumina o sol a cada dia, como a lua alumia cada noite do nosso caminho, como a água clarifica os nossos olhos. Um dia saberei ordenar as letras com sentido.

Então, a página 55 deixada por ler a 13 do 12 de 11 será um registo de que não terei memória.

27.4.12

UMA VEZ QUE JÁ TUDO SE PERDEU, Ruy Belo

Que o medo não te tolha a tua mão
Nenhuma ocasião vale o temor
Ergue a cabeça dignamente irmão
falo-te em nome seja de quem for

No princípio de tudo o coração
como o fogo alastrava em redor
Uma nuvem qualquer toldou então
céus de canção promessa e amor

Mas tudo é apenas o que é
levanta-te do chão põe-te de pé
lembro-te apenas o que te esqueceu

Não temas porque tudo recomeça
Nada se perde por mais que aconteça
uma vez que já tudo se perdeu

in Obra Poética de Ruy Belo, volume 1, Lisboa: Editorial Presença, 1981. p. 164



Kerstin Zu Pan
O que toda a gente sabe, ou julga que sabe, é o que faria com a vida dos outros, com as suas oportunidades, o seu bem estar, o seu conforto. Somos todos treinadores de bancada das vidas alheias, por isso nos divertimos com a imprensa que escrutina os podres e pormenores dos famosos. Com as suas vidas somos sábios na disposição e escolha dos dias. O que não somos é com a nossa vida. Com as oportunidades que desperdiçamos, com o bem estar que julgamos seguro, com o conforto que nos imobiliza.


Connosco somos benevolentes nos erros, nas falhas, nos incumprimentos, mas somos incapazes do mesmo com os demais. Porque são inteligentes, mas bonitos, porque têm obrigação de saber. E nós? Atinarmos para debaixo dos outros as culpas que nos pertencem quando nos percebemos incapazes do que sonhamos.

26.4.12

VICIO NA FALA, Oswalde de Andrade

Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mio
Para pior pió
Para telha dizem teia
E vão fazendo telhados
Nunca entendeste porque, em vez de flores, quis livros.

As flores vivem quando estão na terra e rapidamente se eclipsam sem a sua força primordial. Os livros não têm raízes, florescem quando de mão em mão visitam novos homens, novas pátrias.

As flores são efémeras, findam-se a cada pôr do sol. Os livros vivem da luz que cada leitor derrama sobre as suas entrelinhas, por vezes escritas a lápis.

Por isso, de ti só queria livros para imaginar e, quiçá, uma sebenta para o esquisso de nós.

25.4.12

Libera Me, Carlos Queiroz

Livrai-me, Senhor,
De tudo o que for
Vazio de amor.

Que nunca me espere
Quem bem me não quer
(Homem ou mulher).

Livrai-me também
De quem me detém
E graça não tem,

E mais de quem não
Possui nem um grão
De imaginação.

in Poesia de Carlos Queirós, Lisboa: Editorial Presença, 1966.



Erro na página
Mensagem constante
E volto a insistir
E o erro permanece
E a vida segue
Sem mudar de página
A insistir no erro
De te encontrar
Senão em título
Em nota de rodapé.

24.4.12

AS MENINAS DA GARE, Oswalde de Andrade

Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha
Laranja Mecânica, by Lego
Alberto Emiliano Seveso
É fácil amar a beleza

Seduz-nos com o enigma da sua perfeição
Amar o feio é exigente
Requer um esforço para ver
Além dos traços desarmoniosos
Da luz baça dos dias
E ao feio bastam apenas migalhas dos grandes sentimentos
Insuficiente que se considera para a plenitude
Que não tem em beleza.

23.4.12

#91 em 101 em 1001 – Convento dos capuchos


Uma das minhas muitas lacunas culturais é o desconhecimento do património e história sintrenses. Nesse sentido, tenho feito um esforço para conhecer os locais mais emblemáticos de Sintra e perceber o porquê da sua importância e o impacto que os mesmos têm para visitantes exteriores.
Recentemente, visitei, em trabalho, o convento de Santa Cruz da Serra de Sintra, vulgo convento dos Capuchos. Este convento, datado de 1560, albergou a ordem dos Frades Menores ou Franciscanos, seguidores de S. Francisco de Assis, apologista da contemplação e comunhão com a natureza. Após vários anos de negligência, está desde 2000 sob a tutela da Parques de Sintra Monte da Lua, entidade que tem feito gradualmente um trabalho notório na recuperação do património natural e edificado deste concelho, potenciando o mesmo como ferramenta cultural e turística.
A visita ao convento impressionou-me. Com as suas reduzidas dimensões, obriga-nos a imaginar e ponderar sobre as condições de vida dos monges que ali habitara. A exiguidade dos cómodos, corredores e tetos, as condições atmosféricas da serra, a agricultura e pastoreio de sobrevivência são situações que nos consciencializam sobre a austeridade a que estes homens se votavam em nome de uma crença religiosa.
Num tempo em que a austeridade nos é imposta, em que crenças e valores são diferentes, é impossível não respeitar esta estranha forma de vida.

MUITA DIFICULDADE, Adilia

Yeong Deok-Seo
Tínhamos
em comum
ter de ganhar
o pão
de cada dia
e ter muita
dificuldade
em ganhar
o pão de cada dia.

Isto
é muito mais
que a questão
do destino

Adília, Poemas Novos, 2004,

22.4.12

MÃE, Mª Judite de Carvalho

Se é triste não ter Mãe,
Não ter filhos é também,
Mãe, todos nós a temos,
Cegos,
Por vezes não a vemos.
Mãe que dá a vida,
Mãe que sofre,
Mãe que educa,
Mãe que exige,
Parecendo má, sem o ser,
Sofre sempre, até morrer.
Sofre as agruras da vida,
Sofre até pró filho ter.
Sofre para lhe dar a vida,
Sofre para o ver crescer.
Sofre quando o vê doente,
Sofre se o não vê comer.
Sofre se ele não estuda,
Sofre se ele é indulgente.
Sofre se não está contente,
Sofre se o vê triste,
Sofre se o amor não o assiste.
Sofre se o vê casar,
Sofre se o não vê estimar.
Sofre sempre pelos filhos,
Sofre sempre e tem cadilhos.
Mas ser Mãe, é mais que isto,
É também amar e dar,
É dar até o seu ser,
Dar sem nada receber.
E há abril
E há a esperança
E há uma história

E depois há abril
E com ele o fim
Da vida e do sonho
E essa é a história
Do meu olhar

21.4.12

DOIS CIMBALINOS ESCALDADOS, Inês Lourenço


Não sei, meu amigo, o que
irradiava mais calor, se
a chávena escaldada, se
o cimbalino fervente, se
as conversas sobre livros de poesia
que nesse tempo, ainda
acreditávamos ser a maior
razão

Curto, normal, cheio
o cimbalino, esse negro odor
com moldura branca
numa mesa de café, na cidade
onde habitávamos desde sempre.
José d'Almeida & Maria Flores
Passou o meu aniversário e regresso aos dias normais. Em que não me é exigido celebrações indesejadas. Em que não é esperado de mim mais do que o normal prosseguir dos dias. Passou e agora posso respirar.