Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois

Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois
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10.4.12

ALGUNS GOSTAM DE POESIA, Wisława Szymborska

Yulia Gorodinski
Alguns —
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve,
e os próprios poetas
serão talvez dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia —
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.



Identidade Secreta (2011)


Se aparentemente a saga Jason Bourne já deu o que tinha a dar, eis que surge este Abduction, cujo título em português é homónimo ao primeiro episódio da saga Bourne, e cujo enredo ironiza exatamente com as parecenças físicas entre Taylor Lautner e Matt Damon. E como já havia vaticinado, este poderá muito bem ser o Bourne Pregnancy.
A história é simples: um jovem encontra uma fotografia sua num site de crianças desaparecidas e descobre que a sua vida tem mais que se lhe diga. Afinal, os seus pais biológicos são agentes infiltrados da CIA e, por isso, a sua vida corre perigo. Juntamente com a namorada, vai sobreviver a ataques inusitados, fazendo uso da sua formação desportista, e quase conhecer o seu pai, ajudando, pelo meio, a desvendar a toupeira existente na CIA. O final fica em aberto para novas aventuras, especialmente dedicadas a fãs das aventuras vampíricas de Lautner.

Título original: Abduction * Realização: John Singleton * Argumento: Shawn Christensen * Elenco: Taylor Lautner, Lily Collins, Maria Bello, Sigourney Weaver e Alfred Molina

9.4.12

Era manhã de setembro, Carlos Drummond Andrade

De Immitatie, Eddy Stevens
Era manhã de setembro
e
ela me beijava o membro

Aviões e nuvens passavam
coros negros rebramiam
ela me beijava o membro

O meu tempo de menino
o meu tempo ainda futuro
cruzados floriam junto

Ela me beijava o membro

Um passarinho cantava,
bem dentro da árvore, dentro
da terra, de mim, da morte

Morte e primavera em rama
disputavam-se a água clara
água que dobrava a sede

Ela me beijando o membro

Tudo o que eu tivera sido
quanto me fora defeso
já não formava sentido

Somente rosa crispada
o talo ardente, uma flama
aquele êxtase na grama

Ela a me beijar o membro

Dos beijos era o mais casto
na pureza despojada
que é própria das coisas dadas

Nem era preito de escrava
enrodilhada na sombra
mas presente de rainha

tornando-se coisa minha
circulando-me no sangue
e doce e lento e erradio

como beijara uma santa
no mais divino transporte
e num solene arrepio

beijava beijava o membro

Pensando nos outros homens
eu tinha pena de todos
aprisionados no mundo

Meu império se estendia
por toda a praia deserta
e a cada sentido alerta

Ela me beijava o membro

O capítulo do ser
o mistério de existir
o desencontro de amar

eram tudo ondas caladas
morrendo num cais longínquo
e uma cidade se erguia

radiante de pedrarias
e de ódios apaziguados
e o espasmo vinha na brisa

para consigo furtar-me
se antes não me desfolhava
como um cabelo se alisa

e me tornava disperso
todo em circulos concêntricos
na fumaça do universo

Beijava o membro
beijava
e se morria beijando
a renascer em setembro

Imortais (2011)


Este filme é uma adaptação feita pela equipa que produziu 300 de alguns episódios e personagens da mitologia grega sintetizados na figura de Teseo e do seu combate contra o rei Hipérion.
Teseu é um humilde lavrador escolhido por Zeus, que sob disfarce é seu mentor, para defender o povo grego do ataque do rei Hipérion, que pretende destruir a humanidade através da libertação dos titãs, raça de antigas divindades, aprisionada no mundo subterrâneo sob o Monte Tártaro. Com um visual gráfico próximo de 300, apresenta um enredo coerente, embora não fiel aos relatos míticos existentes, o que resulta num filme interessante e num bom produto de entertenimento.

Título original: Immortals * Realização: Tarsem Singh * Argumento: Charley Parlapanides, Vlas Parlapanides * Elenco: Henry Cavill, Mickey Rourke, Stephen Dorff, Freida Pinto, Luke Evans e John Hurt

8.4.12

COM UNHAS E DENTES, Luís Filipe Parrado

Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.



Um Grito de Coragem (1988)


No início da década de 1980, durante umas férias familiares de campismo, um jovem casal vê a sua filha mais nova, de apenas 2 meses, ser levada por um dingo. Sem o corpo alguma vez ter sido encontrado, e com a ciência forense não tão evoluída, depressa as suspeitas recaem sobre a mãe, Linny Chamberlain, que rapidamente é considerada culpada pela opinião pública. Sob uma tremenda exposição mediática, o casal, adventista do sétimo dia., enceta um longo e controverso processo para comprovar a sua inocência, que só viria a ser reconhecida quase uma década mais tarde.
Realizado em 1988, este filme valeu a Meryl Streep uma nomeação aos Óscares, pela sua interpretação de Linny Chamberlain, uma mulher pouco expressiva, que não Grangeia a simpatia pública, e extremamente lúcida e inteligente para perceber que é considerada culpada pela opinião pública.
Uma aposta interessante e bem conseguida, é intercalação da apresentação dos fatos com as conversas de anónimos de todos os estratos sociais e de vários pontos do país, com as suas opiniões e juízos sobre os acontecimentos e as subsequentes tomadas de posição.
Ao ver este filme só agora, é impossível não comparar este com o caso Maddie, que quase parece uma cópia. As suas incoerências, dúvidas e postura dos pais apaixonaram a opinião pública que na sua maioria imputa culpa aos pais, mas cuja verdade talvez nunca venhamos a saber. A única verdade é que todos somos anónimos com opiniões formadas com base no mediatismo do caso, cuja proximidade com a realidade talvez seja nenhuma.

Título original: Evil Angels * Realização: Fred Schepisi * Argumento: John Bryson e Robert Caswell * Elenco: Meryl Streep, Sam Neill e Dale Reeves

7.4.12

Jordi Nadal

Há uns tempos, dei com a recomendação de leitura da página pessoal de Jordi Nadal, conceituado editor espanhol, que, além de dar conta do seu percurso profissional, possui uma interessante listagem de leituras recomendadas. Como o que encontramos não deve ficar connosco, aqui fica uma sugestão de visita e de leitura:

www.jordinadal.com

... amor é encontrarmos pessoas estilhaçadas que precisam quem as une.

Ascenção, Patricia Ariel

6.4.12

Sexo, mentiras e despedidas


Não foi um brinco esquecido debaixo da cama que denunciou a tua traição. Nem mensagens inusitadas no Facebook. Sempre foste muito discreto, mas ninguém é perfeito, pelo menos ela não foi.

E posso demorar a ver a realidade, mas uma vez visto, não há como voltar a trás. E, neste caso, também não há desculpas que justifiquem. Não para mim. Não há momentos menos bons. Não há incompreensões. Não há falta de diálogo. Não há querermos coisas diferentes. Nada disso. Há apenas as oportunidades que aproveitas(te), pensando nunca serem descobertas. O que significa apenas que estás longe de ser o homem que quero e que mereço. Por isso, ficamos por aqui. Eu comigo e tu com qualquer dos teus contatos telefónicos, para lá destas portas que se cerraram indubitavelmente para ti.

Esta noite vou chorar, não vou dormir grande coisa. Amanhã acordo com olheiras e um humor de cão. Mas à noite o cansaço vencerá e, depois do sono profundo, acordarei tranquila e pronta para arriscar novos começos. Certa de que cada queda me torna mais forte e do futuro que quero para mim.

Amostra sem valor, António Gedeão

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

in Máquina de Fogo, 1961

5.4.12

Todos os dias, há alguém que chega a esta página pela primeira vez. Demorará uma média de 7 a 10 segundos a decidir se regressará ou não. O meu desafio é: como prender a atenção desse novo visitante sem recorrer a truques baixos, como, por exemplo, o uso abusivo de comentários depreciativos, linguagem sexual explicita, ou a utilização de frases e pensamentos delico-doces para almas carentes e esperançosas.

Desejo que o regresso se deva a uma qualquer identificação com o que escrevo e como o escrevo estes, que mesmo quando o não são, registos pessoais, vivências e aspirações.

Como ser eu e que esse eu faça sentido a tantas e tão diferentes pessoas?

DEMOCRACIA, Nuno Júdice

Fui dar com a democracia embalsamada, como
o cadáver do Lenine, a cheirar a formol e aguarrás,
numa cave da Europa. Despejavam-lhe por cima
unguentos e colónias, queimavam-lhe incenso
e haxixe, rezavam-lhe as obras completas do
Rousseau, do saint-just, do Vítor Hugo, e
o corpo não se mexia. Gritavam-lhe a liberdade,
a igualdade, a fraternidade, e a pobre morta
cheirava a cemitério, como se esperasse
autópsias que não vinham, relatórios, adêenes
que lhe dessem família e descendência. Esperei
que todos saíssem de ao pé dela, espreitei-lhe
o fundo de um olho, e vi que mexia. Peguei-lhe
na mão, pedi-lhe que acordasse, e vi-a tremer
os lábios, dizendo qualquer coisa. Um testamento?
a última verdade do mundo? «Que queres?»,
perguntei-lhe. E ela, quase viva: «Um cigarro!»

in A Matéria do Poema, Dom Quixote

4.4.12

SOBRE OS DOIS ADOLESCENTES QUE ESTA TARDE ATRAVESSARAM A RUA DE MÃOS DADAS, Luís Filipe Parrado

Irina Kotova
Foi depois do fim das aulas.
Passaram o portão de ferro da escola
e deram as mãos
para atravessarem a rua.
E, de mãos dadas, formaram
uma corrente
tão poderosa, tão compacta,
que o trânsito teve mesmo de parar
e ficou completamente imobilizado. Não vou ceder
agora à tentação
de afirmar que assisti
à materialização de um milagre,
afinal é coisa
que deve estar sempre a acontecer,
em algum lugar, ao fim
da manhã ou da tarde, logo
depois das aulas,
dois adolescentes dão
as mãos, atravessam a rua, bloqueiam
a circulação rodoviária
de uma cidade.
Mas pensa nisso por um segundo,
pensa na força dessa corrente.

2000 Posts

Quem diria?

3.4.12

COITO, Ferreira Gullar

Todos os movimentos
do amor
são noturnos
mesmo quando praticados
à luz do dia

Vem de ti o sinal
no cheiro ou no tato
que faz acordar o bicho
em seu fosso:
na treva, lento,
se desenrola
e desliza
em direcção a teu sorriso

Hipnotiza-te
com seu guizo
envolve-te
em seus anéis
corredios
beija-te
a boca em flor
e por baixo
com seu esporão
te fende te fode
e se fundem
no gozo
depois
desenfia-se de ti
a teu lado
na cama
recupero minha forma usual.

Christian Weisz
Há muito que consigo fazer sozinha, mas não consigo fazer tudo o que quero. Para isso, tenho de me rodear das pessoas que podem partilhar o percurso e objetivos comigo.


Sozinhos conseguimos o que podemos, juntos conseguimos tudo.

2.4.12

DEFEITO DE FABRICO, A. M. Pires Cabral

Quando nasci, trazia de origem
um farol que despejava luz a jorros
sobre o que quer que fosse,
mormente sobre as dobras
pérfidas da noite.

Mas, por estranho que pareça,
também os faróis estão sujeitos
às leis da erosão,
e o meu farol deliu-se. Hoje não é
mais do que um triste farolim de bicicleta
que apenas me alumia dois palmos de noite.

Amanhã estará reduzido
a uma simples lanterna de bolso
com que mal poderei reconhecer
o lugar onde estou.

Até que um dia será, está bom de ver,
o mais fiável cúmplice da noite –
– da noite que devia dissipar,
e não fundir-se nela.

Defeito de fabrico.
Mas a garantia caducou e o fabricante
nega-se a ressarcir-me do escuro.

Yeong-Deok Seo
Quando sentimos que estagnamos, é porque paramos de lutar ou porque deixamos de ter objetivos. Parte de nós combater a estagnação, delinear novos objetivos, alterar rotinas dentro das rotinas, seguir em frente, mesmo quando é necessário um recuo.

1.4.12

UM SORRISO, Ferreira Gullar

Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas

quando
com o meu aceso archote e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?

que busco eu
em fogo
aqui embaixo?
senão colher com a repentina
mão do delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?

Alberto Emiliano Saveso

Para celebrar Abril...


…Um poema por dia!