No passado fim de semana, participei no 4º Percurso Literário promovidos por As Voltas de Ulisses – Passeios culturais Temáticos por Lisboa. Este percorreu – se a memória não me falha - o Largo de Camões, o Largo do Alecrim, o Palácio do conde de Farrobo, o Largo da Trindade, o Bairro Alto, terminando no Príncipe Real.
Foi uma oportunidade para contextualizar alguns cenários da vida literária nacional, para conhecer alguns recantos curiosos de Lisboa, e também para perceber a logística deste tipo de oferta cultural, para – quem sabe – adaptá-la a Sintra e à sua vasta riqueza patrimonial. Uma opção a analisar com atenção.
Tomei conhecimento, há poucos dias, do projecto de residência artística, entre outros, Casa da Escrita, em Coimbra, e fiquei cativada. A ideia de residência artística sempre me suscitou curiosidade e é algo que gostaria de experimentar: viver durante determinado tempo num local e reflectir essa experiência num determinado produto artístico. E considerando que alguns dos livros que já li nasceram dessa experiência, ainda fico mais curiosa.
Inevitavelmente, dou por mim a pensar em sítios onde poderia ir e no que de diferente lá existiria que pudesse transportar para a escrita: Uma cidade, uma língua, uma cultura, uma respiração, uma luz?
Depois, penso no que Sintra teria a ganhar se o município promovesse uma residência artística. Há, com certeza, fogos camarários que poderiam ser canalizados neste sentido. Há igualmente uma rede associativa e entidades culturais que poderiam ser e obter uma mais valia com a inevitável troca de experiência.
Em tempo de vacas magras, este poderá não ser um projecto prioritário, mas não podemos esquecer que neste tipo de projectos o seu impacto não é momentâneo e poderá ser uma ferramenta de promoção interna e internacional do nosso concelho.
No passado dia 13 de Maio, na sua crónica quinzenal no Ípsilon, António Pinto Ribeiro abordou o tema dos públicos.
Dentro do enorme tema dos públicos, a sua ênfase vai para as mudanças no acesso a bens/produtos culturais provocadas pelo crescimento e difusão da internet. Salienta que a internet não é apenas um veículo de promoção de determinado evento/equipamento, mas que se tornou ela própria uma nova “experiência de recepção, sobre a qual muito está por saber”, tendo reformulado as existentes “possibilidades de aprendizagem e formulação de estéticas de recepção.”
Como ferramenta de divulgação/acesso à informação, a internet tem permitido curiosas e impressionantes experiências de aprendizagem/conhecimento, das quais me saltam à memória o Google Earth e o Google Art Project . Embora, por exemplo, estes não substituam a experiência in loco, não deixa de ser uma experiência que impressiona pelo investimento tecnológico e pelas possibilidades que apresenta.
Teoricamente, a internet vem permitir a democratização do acesso à informação e à cultura, obrigando a rever o paradigma de Bourdieu, cuja génese ideológica não era nova, mas não tinha sido até à data comprovada cientificamente. Hoje, potencialmente, todos temos acesso à internet, mesmo não sendo nas nossas casas, através, por exemplos, da rede nacional de espaços jovens e de outros serviços e instituições.
Resta-nos agora perceber os efeitos reais e o modo como os públicos - a “instância mais propicia à infidelidade” – virtuais podem deixar a sua marca e apreender o conhecimento e as instituições.
Uma das práticas dos museus nacionais é a sua gratuidade aos domingos de manhã. Mas agora essa possibilidade será bastante reduzida. Pelos vistos, o número de visitantes abrangidos por essa estratégia é demasiado superior ao previsto e desejável. Ou seja, os visitantes nacionais, como bons tugas, abusam das borlas.
Como forma de transformar essas gratuidades em fonte de rendimento (sempre necessária) para os equipamentos museológicos, essa possibilidade será reduzida para um domingo por mês. Ainda não se sabe a partir de quando a medida entrará em vigor e se dia será o mesmo para todos os museus. Consequências?
A possibilidade de acesso à cultura a famílias e indivíduos mais carenciados continuará. Várias das visitas passarão a ser pagas, pois para alguns agregados e visitantes não significará uma despesa incomportável. Numa primeira fase, o número dos visitantes diminuirá.
Será uma atitude correcta? É uma atitude aceitável, pois não acaba com as gratuidades, apenas as limita. E quem necessita poderá continuar a usufruir. Para os equipamentos, significará exponencialmente o aumento do rendimento de bilheteira, uma imperiosidade em tempos de contenções orçamentais.
Ao elaborar uma programação de uma comemoração que envolve actividades e pólos de atracção distintos, há que planificar uma estratégia de divulgação que contemple as especificidades de cada evento.
Há publicidade diferente e diferentes maneiras de chegar a cada público. Há actividades que têm público próprio e há actividades cujo público, sem hábito, necessita ser cativado. Não se pode pensar que se atraem estes públicos do mesmo modo, nem se pode pensar que alguns métodos tradicionais de divulgação, por vezes demasiado enraizados nos responsáveis, são eficazes com os novos públicos, cujo cada vez maior contacto com as tecnologias apaga qualquer impacto em relação aos métodos tradicionais.
Os novos desafios da divulgação passam por conseguir um plano de evidência entre as demais ofertas e ruído promocional. Mas há algo que qualquer promotor não pode deixar de esquecer: a divulgação necessita de tempo, seja para poder abranger um maior número de destinatários, seja para criar nesses a necessidade/desejo de participar nos eventos promovidos.
Este pequeno livro resulta de um trabalho de pesquisa universitária e procura fazer uma análise do humor em termos cognitivos, sociais e psicanalíticos. Em cada uma destas áreas, defende uma teoria específica (incongruência, superioridade e libertação, respectivamente), não deixando de salientar a relevância de outras, que no fundo confluem nas defendidas.
Apesar de ter como base a análise de um corpo de anedotas, este trabalho é uma relevante síntese das várias teorias humorísticas apresentado modelos de comunicação, tipologias e contextos histórico-sociais.
Na licenciatura – em Línguas e Literaturas Modernas, Variante Português/Inglês, procurei realizar todas as leituras obrigatórias, o que nas aulas se revelava uma mais valia, pois estava familiarizada com as problemáticas das obras e permitia várias intervenções. Contribuiu para a minha auto-confiança, pois contactava que as minhas inferições estavam em grande parte correctas e que fazia uma avaliação correcta de situações. Ajudou-me também socialmente, pois ao fazer análise de personagens aprendi também a “ler” as pessoas nas entrelinhas, ou seja, a conhece-las não só pelo seu discurso, mas, e sobretudo, pelas suas acções. Talvez por isso, ainda hoje, quando conheço alguém, gosto de escutar primeiro e falar depois.
Mas foi depois de concluir a licenciatura que encontrei vários universos que me cativaram. O primeiro foi sem dúvida a prosa poética de Sam Shepard, que conhecia da sua carreira cinematográfica. Depois descobri, entre outros, o realismo fantástico latino-americano, a literatura de expressão lusófona, e autores como Luís Fernando Veríssimo e Ismaël Kadaré.
Dez anos após concluir a licenciatura, retomei os estudos ao ingressar no Mestrado em Práticas Culturais para Municípios. Foi uma experiência simultaneamente aliciante e com a qual estava apreensiva. Significava quebrar um hábito de uma década de leitura ficcional e enveredar por leituras mais técnicas e ensaísticas. Foi uma experiência compensadora, não tanto que me alargasse novos horizontes, mas algumas leituras permitiram a constatação de posturas/opiniões pessoais1 e a sistematização de conhecimentos obtidos de forma mais empírica/por observação. Se Bourdieu não se revelou uma novidade em termos teóricos, foi importante pela obtenção de terminologia sociológica. Já António José Saraiva foi ao encontro da opinião pessoal de que a arte deve ser sempre considerada um ponto de partida e que considera-la um ponto de chegada é castra-la das suas possibilidades de desenvolvimento e criação.
Das minhas leituras, normalmente não fazem parte os clássicos, pelo menos no que diz respeito a períodos literários que não o contemporâneo. Talvez devido ao regime paradigmático com que somos servidos nos nossos anos de formação, mas com o qual poucas vezes estabelecemos uma relação de empatia. Não fujo da leitura dos clássicos, mas na verdade também não a procuro. A não ser, é claro, que obrigações curriculares assim o ditem.
É verdade que acabam por ser uma leitura prazeiroza, mas quando encontramos um leque de autores e temas que nos intrigam e apelam, temos a tendência para mantermos as nossas leituras nessas áreas e isso acaba por afastar-nos dos clássicos, ou pelo menos no meu caso assim acontece.
Sempre me lembro de haver livros em minha casa, embora não tenha memória de os ver serem lidos. Existiam algumas colecções de encadernação cuidada que compunham uma estante dignificante na sala. Eram sobretudo de clássicos portugueses – Camilo Castelo Branco, Camões, Júlio Dinis, Eça de Queirós, mas, à excepção das leituras escolares obrigatórias, nunca foram lidos.
Estas colecções foram todas adquiridas através do Círculo de Leitores, que foi durante anos o único meio de comprar livros em Agualva-Cacém, onde vivo, e onde não havia qualquer livraria. A selecção era efectuada em função das colecções, o que dispensava a escolha de títulos diferentes em cada edição da revista da editora. Gradualmente as escolhas passaram a ser da responsabilidade dos filhos e sem qualquer restrição, a não por vezes a financeira. Quanto às escolhas dos meus irmãos – rapazes 10 e 8 anos mais velhos, estas recaíam sobretudo em livros de aventura e espionagem. Recordo algumas aventuras de Emílio Salgari, Clive Cussler, Martin Cruz Smith. Não li nenhum destes, mas li todas as aventuras de Sherlock Holmes, por Sir Arthur Conan Doyle, que se deve com certeza à exibição na RTP da respectiva série televisiva.
Adquiri hábitos de leitura nos últimos anos de escola primária e durante o ensino preparatório. Tal deveu-se ao facto de não frequentar nenhum Jardim-de-infância ou ATL, o que me obrigava a acompanhar a minha mão para o seu local de trabalho e a entreter-me enquanto ela o realizava.
Recordo que as minhas primeiras leituras foram livros infantis como 365 histórias de encantar, provérbios e adivinhas e mais tarde a série Uma Aventura, cujos livros eram ofertas frequentes de Natal e aniversário. Paralelamente, percorri os valores morais da Condessa de Ségur, que ainda hoje me fazem sentido e que foram talvez as primeiras leituras a contribuir directamente para a formação do meu carácter.
No secundário, talvez por alguma rebeldia inerente à idade, decidi não ler as obras de leitura obrigatória para o 10º e 11º e, em vez disso, adquiri alguns livros de Notas da Europa-América. Não foi exactamente uma experiência muito aliciante, pois percebi que não sabia pormenores importantes para a discussão das obras. Por isso mesmo, na disciplina de Literatura portuguesa do 12º ano, li todos os livros obrigatórios. Foi uma experiência muito mais recompensadora e que me permitiu diferentes níveis de compressão, quer das obras, quer dos contextos, e até em termos de preferências pessoais. Ainda hoje, Miguel Torga é um poeta de eleição e o mito de Orfeu um tema recorrente nas minhas escolhas e até ponderações.
A nível nacional, as acções de promoção à leitura têm maioritariamente como públicos-alvo as faixas etárias infanto-juvenis, deixando à margem o público Adulto. O objectivo deste projecto é apresentar uma proposta de animação à leitura para um público adulto, tendo em conta a sua heterogeneidade, como configurações sociais, económicas e culturais. O projecto tem como base a promoção de obras literárias não canónicas e de vertente humorística.
É sempre complexo a definição de uma programação que tenha como alvo o público adulto activo, ou seja, a camada de população entre os 25 e os 65 anos. O seu desenvolvimento levanta alguns desafios, como: a grande abrangência etária, que implica que indivíduos que o compõem se encontram em diferentes estágios de realização pessoal, profissional e económica; e a heterogeneidade do grupo, pois apresentam diferentes backgrounds culturais.
Há também de ter em conta que um público adulto tem já grande parte das suas configurações de gosto estabelecidas e que poderá não estar receptivo a determinadas propostas ou sugestões.
A 2 de Outubro de 2008, o Município de Sintra assistiu à inauguração do seu mais recente equipamento cultural: a Vila Alda – A Casa do Eléctrico de Sintra. Situada numa zona privilegiada da Vila de Sintra, está rodeada de vários outros equipamentos culturais (Centro Olga Cadaval, Museu de Arte Moderna, Teatro Chão de Oliva, entre outros).
Denominada como a Casa do Eléctrico de Sintra, a Vila Alda parece, à partida, ter o seu objectivo definido enquanto espaço cultural. No entanto, e observando o equipamento cria-se a percepção de que este objectivo só, pelo menos como apresentado até ao momento, não é suficiente para criar e fidelizar um público.
Assim, é necessário perceber as suas estratégias de programação e identidade para a formação de um público, bem como se procederá à desejada complementaridade aos espaços já existentes, com públicos e estratégias já definidos.
Apresentação do equipamento
A Vila Alda situa-se na rua General Alves Roçadas, frente à rotunda que permite a divisão do trânsito local para o acesso à orla marítima, aos itinerários complementares que circundam a vila e o acesso centro da mesma. É na área exterior da Vila Alda que se localiza o cais de embarque do eléctrico de Sintra.
Antigamente, o Eléctrico tinha a sua base de operações na Ribeira de Sintra, mas quer as remodelações na estrutura de serviços do próprio eléctrico, quer a afectação deste espaço ao Museu de Ciência Viva, deixaram o eléctrico sem um espaço de apoio. Assim, a principal função deste novo espaço é a de terminal do eléctrico, onde se poderá adquirir bilhetes e receber informações várias sobre a sua história, evolução e impacto na sociedade e economia sintrense. Esta perspectiva panorâmica sobre o Eléctrico é conferida através de uma exposição permanente a decorrer neste espaço.
No entanto, como o serviço prestado pelo Eléctrico é sazonal, importava conferir a este espaço outras funcionalidades que lhe permitam ser um equipamento dinâmico e tirar proveito da sua excelente localização geográfica.
Assim, este espaço procura ser também um novo ponto de apoio ao turismo, inserindo-se na rede já existente de três postos de turismo no concelho[1].
Mas as intenções autárquicas para este espaço não se ficam por aqui. É intenção do município fazer deste igualmente um espaço da memória e identidade das gentes de Sintra, um espaço para manifestações artísticas e um espaço de lazer.
Deste modo, conclui-se que existe uma aposta na complementaridade de serviços. Por um lado, esta complementariedade é um modo de rentabilização clara do equipamento. Por outro, pode estar a introduzir demasiados elementos a ter em conta na equação deste espaço, pois dificulta a delineação de uma personalidade própria para o mesmo[2].
O aproveitamento deste espaço pode passar pela aposta no desenvolvimento da MarcaEléctrico de Sintra, uma vez que este é um dos ex-libris do concelho. Ao apostar nesta marca será relevante desenvolver uma série de produtos de merchandising que não só consolidam a sua divulgação, como podem ser uma interessante fonte de receitas. Este é aliás uma das apostas do Museu do Carro Eléctrico da STCP – Sociedade de Transportes Colectivos do Porto, que além da exposição de várias carruagens de transporte representativas de várias épocas, possui um vasto leque de merchandising disponível ao público. Este além de produtos próprios, como reproduções de carruagens, postais, imans, etc, disponibiliza ainda outros produtos relativos à autarquia do Porto.
Comparativamente a este Museu, a Vila Alda não dispõe de espaço para albergar antigas carruagens, mas o facto de se poder efectuar a viagem de eléctrico joga a seu favor. No entanto, é relevante observar como é o Museu procede à sua promoção e divulgação. Seria igualmente relevante desenvolver uma oferta educativa[3] relativa ao eléctrico, mesmo que esta seja apenas paralela ao serviço efectuado pelo mesmo. Deste modo, dar-se-ia corpo à intenção manifestada pela autarquia em o “Eléctrico um museu vivo”. Embora este espaço não cumpra outros requisitos para fazer dele um museu, uma vez que não intenção de eventualmente transferir toda a documentação histórica esteja nos arquivos municipais e criar assim um Centro de Documentação relativo ao carro eléctrico. Ou seja, a autarquia utiliza o termo museu para credibilizar o espaço recém criado, mas não está a desenvolver esforços na concretização de um espaço museológico propriamente dito.
Uma das apostas do equipamento deverá ser o desenvolvimento de parcerias com o tecido associativo local, pois permite a realização de uma programação diversificada e revela-se um palco benéfico à divulgação das respectivas associações.
[1] Edifício do Turismo - Galeria Municipal, Posto de turismo – Estação Ferroviária, Posto de Turismo – Cabo da Roca.
[2] Delfim Sardo, no artigo “Multi-quê?”, afirma que “… existe uma compulsão pela construção de espaços expositivos generalistas, em grande parte promovidos pelas autarquias, e que se configuram como “multiusos” ou “polivalentes”, é importante pensar as funções expositivas … e reflectir sobre a utilização do parque patrimonial.”
No livro Ser ou Não Ser Arte, António José Saraiva tece várias considerações sobre a arte, tendo como objecto de análise a literatura. Das várias ilações apresentadas, salienta-se
“ ... o essencial de uma obra artística é ela ser comunicativa, ..., é ela desencadear no seu leitor, ..., um processo que é também activo e criador. Para o artista, a obra criada é um momento de condensação e de consumação da actividade criadora; para o destinatário ... é o começo de uma nova actividade.”[1]
Ou seja, o autor defende que a arte, seja sob a forma de literatura ou não, é sempre um ponto de partida, pois “da arte sabemos só que não volta ao príncipio.”[2]
Na sua apresentação sobre Animação à Leitura, Paulo Lages apresentou a seguinte proposta de definição: “actividade de carácter lúdico com o objectivo de criar, com recurso a meios expressivos, um contexto original que suscite, favoreça e adeque a leitura partilhada de uma obra.”
Ou seja, obriga-nos a repensar o modo como encaramos a literatura, que deixa de ser um ponto de partida e se torna o objectivo a alcançar, o ponto de chegada. Isto coloca-nos a questão: como chegar a uma obra? Ou, melhor, que estratégias desenvolver para levar alguém a uma obra? Mas estas não são as únicas questões que a animação à leitura induz. A animação, enquanto parte do objectivo mais vasto de promoção à leitura, suscita ainda outras questões: Será suficiente apenas apenas sugerir leituras? Será necessário dotar o leitores de novas competências?
A promoção à leitura não apresenta fórmulas estanques de leitura, pois “não há uma única forma de ler bem,...”[3] Aliás, o objectivo da promoção à leitura é suscitar o prazer ou a curiosidade da leitura e consciencializar o interlucotor que a leitura é para “ponderar e reflectir.”[4] Assim, como salienta Paulo Lages, suscitar a leitura passa por preparar um espaço e conquistar tempo para a mesma.
Na sua apresentação, Paulo Lages revelou algumas das suas técnicas desenvolvidas neste âmbito, o que foi bastante relevante. Mas mais relevante ainda, foi consciencializar para necessária mudança de prespectiva em relação há literatura quando se desenvolver alguma acção nesta área: há que chegar a ela e não apenas partir dela.
[1]SARAIVA, António José. Ser ou não ser arte. Estudos e Ensaios de metaliteratura. Lisboa: Edições Europa-América, 1974. (p. 167)
À medida que a sociedade muda, temos de mudar com ela, mas tal não significa demolir instituições preciosas e apreciadas como a biblioteca pública.[1]
Capturada após um ataque aéreo durante a II Guerra Mundial, a imagem poderia estar na origem de um dos vários quadros surrealistas de Magritte. Estes homens impecavelmente vestidos e com os seus chapéus não pairam no ar nem são fruto de efeitos de óptica, mas parecem tão fora de contexto quanto as personagens deste pintor. Não será por certo usual que em períodos caóticos, como são certamente os de guerra, se tenha a biblioteca ou a leitura como prioridade. No entanto, que outro local poderá encerrar em si uma promessa de ordem nesse imenso caos? Não serão as estantes devidamente organizadas de uma biblioteca a prova de que todo o caos poderá encontrar uma ordem justificada. Não será a promessa do conhecimento a maior arma contra a ignorância e caos das sociedades. Talvez seja essa promessa que leve os homens de bem a procurar nestes espaços, o repositório da memória dos homens, as ferramentas para que o mal não triunfe.
[1] USHERWOOD, Bob, A Biblioteca Pública como Conhecimento Público, Editorial Caminho, Lisboa, 1999. (pág. 15)
A Biblioteca é um texto escrito originalmente para uma conferência proferida por Eco em 1981, tendo sido editado nesse mesmo ano.
Impregnado de um grande humor, o texto fala dessa grande aspiração que é a constituição de uma biblioteca à imagem do homem. Ou seja, uma biblioteca à medida das suas (várias) necessidades. Por isso mesmo, elabora uma lista de 19 pontos pelos quais se rege uma má biblioteca, com o objectivo de pela negativa se chegar a um modelo o mais próximo possível da biblioteca ideal.
Dos vários pontos, mais ou menos perceptíveis ao comum leitor/utilizador de biblioteca, salienta-se:
- “a biblioteca deve desencorajar a leitura cruzada de vários livros, porque provoca estrabismo”;
- “ o bibliotecário deve considerar o leitor como inimigo, um vadio (senão estaria a trabalhar), um ladrão potencial”.
É um texto de fácil compreensão e em que qualquer utilizador de biblioteca se revê a dado momento.
Em 1941, Borges escreveu um pequeno texto intitulado A Biblioteca de Babel que foi editado em 1944 no livro Ficções. Desde a sua edição, este pequeno conto tem instigado a curiosidade e o fascínio de todos quantos o lêem, desde os meros leitores, até aos profissionais que de um modo ou de outro se ligam à actividade da leitura. Neste texto, Borges apresenta-nos um arquétipo de biblioteca, não só do ponto de vista físico, como organizacional. A sua proposta de biblioteca recorda-nos a figura geométrica do fractal, que se estende até ao infinito, através de inúmeros desdobramentos sequenciais. Assim, podemos considerar a biblioteca como uma figura natural, capaz de se desdobrar de modo a comportar qualquer crescimento e evolução do conhecimento. Do ponto de vista organizacional, Borges coloca a tónica na figura do bibliotecário, esse mediador entre o leitor e o caos de informação. Assim, o bibliotecário é o ser que mais se aproxima de um estatuto divino, pois é o único que consegue impor qualquer ordem ou sentido ao caos primordial. É a este que cabe organizar, difundir, mas também seleccionar a informação, o que faz dele também um censor poderoso. O bibliotecário é o arqueólogo da informação, pois está nas suas mãos a possibilidade da descoberta da informação que se julga perdida, um tesouro que tanto pode revelar a pedra filosofal, como a panaceia ou quem sabe a origem do tempo. Deste modo, a Biblioteca de Babel, resultante de vários saberes, culturas e conhecimentos, revela-se também ela um enigma. Quiçá a verdadeira caixa de Pandora.
Algumas sugestões pessoais, após desafio feito em aula.
Literatura FERREIRA, Vergílio – Para Sempre, Bertrand Editora, (1983) 1996 SARAMAGO, Rui Miguel – A Escrita Efémera, Crónica de um Descalabro, Círculo de Leitores, 2002. VERÍSSIMO, Luis Fernando – Mar de Palavras in A Eterna Privação do Zagueiro Absoluto, Objectiva, 1999
O EMS é composto por vários núcleos e extensões museológicas em que se procura preservar e divulgar as actividades económicas e culturais características deste concelho, como a pesca, a moagem, a indústria corticeira e de pólvoras, entre outras. Assim, este é um interessante exemplo de como o património concelhio pode ser conservado, contextualizado e apresentado ao público de uma forma aparentemente simples, mas eficaz e interessante.
O tempo do livro é o tempo da morte e nós estamos vivos e cheios de coisas a fazer. O tempo do livro é o da imaginação trabalhosa e nós estamos cheios de realidade. Descreve esta sala e vê o tempo que se leva, tu a escreveres e eu a ler. Mas eu olho para a sala e sei logo tudo. O tempo do livro é o do carro de bois. Tenho mais que fazer.
Vergílio Ferreira, Para Sempre, p. 106.
É inquestionável que a biblioteca tem, ao longo das últimas décadas, alterado a sua oferta ao público, seja pelos novos suportes de informação existentes, seja pelo tipo de actividades apresentadas, Comummente considerada como o local dedicado ao livro, é também notório que este novo tipo de oferta tem desviado alguma da atenção que há alguns anos atrás lhe era exclusiva.
Assim, a questão que se coloca é se ainda podemos falar de biblioteca? Se sim, é evidente que esta ganhou uma nova acepção. Se não, devemos considerar antes estes espaços como mediatecas, já que media designa genericamente qualquer tipo de suporte pelo qual é veiculada informação. Para responder a esta questão, há que percepcionar o que realmente atrai os utilizadores a estes espaços.
Podemos considerar que o livro ainda é a principal oferta de uma biblioteca. No entanto, serviços como o acesso gratuito à internet, actividades lúdico-pedagógicas e outros suportes de informação estejam a registar um significativo aumento de procura. E esta situação tenderá a manter-se num futuro próximo.
Igualmente num futuro não muito remoto, o papel do livro na biblioteca poderá ser, não o seu maior atractivo, mas o maior pretexto para todas as outras ofertas existentes. Afinal, a internet permite o acesso à informação on-line, o filme é uma adaptação da obra, o debate é uma homenagem à obra ou ao autor, e a animação é baseada numa história. Assim, talvez o maior desafio da biblioteca seja exactamente esse: o de que o livro assuma novamente o protagonismo deste espaço, oferecendo ao leitor uma experiência feita à sua medida e ao seu tempo.
Museu: “… capital cultural objectivado e fonte prestigiada e prestigiantes de incorporação simbólica.” (João Teixeira Lopes, p.191)
O conceito de museu tem, nas últimas décadas, alargado a sua amplitude, incluindo novas funções lúdico-culturais, para além das tradicionais. Este alargamento potencia uma maior articulação com a cidade em que se insere e com o respectivo quotidiano social.
O museu tem uma influência incisiva no (re)desenho da cidade, pois é muitas vezes o elemento protagonista na requalificação urbana de um local. Este, seja um espaço reabilitado ou construído de raiz, tem um papel activo no respeitante a: requalificação de áreas degradas; redefinição dos limites da cidades; novas acessibilidades; renovada promoção mediática; e novas dinâmicas sociais.
Assim, o museu assume um papel de ícone de modernidade, oferecendo uma interpretação arquitectónica da cidade num determinado período temporal. Incorporando o museu esta ideia de representação espacio-temporal (zeitgeist), torna-se relevante observar como é que as entidades (o próprio museu e os municípios) fazem o aproveitamento dessa representação no seu discurso institucional. Ou seja, importa perceber qual o papel do museu nas estratégias de divulgação das instituições, bem como é realizada a mediatização da imagem do museu, enquanto conteúdo de fruição, e não enquanto contentor de outros conteúdos.
BARRANHA, Helena (2005), «Arquitectura de Museus e Iconografia Urbana: concretizar um programa, construir uma imagem», in SEMEDO, Alice e LOPES, J. Teixeira (coord.), Museus, Discursos e Representações, Porto: Edições Afrontamento, pp. 181-195.