Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois

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2.2.11

A posse

The Assessment, Jack Vettriano

A casa está estranhamente silenciosa e do corredor vislumbra-se unicamente uma penumbra rubra vinda da sala.
- Que vestimentas são essas?
- As que tu gostas, não é?
- Sim, gosto. Não estava à espera de te ver nesses preparos.
- Claro, preferias ter o jantar pronto, um whisky e calçar os chinelos. Estes preparos preferes nas outras, não é?
- Gosto de me por confortável.
- Eu também. E ficava mais confortável se me agarrasses e me possuísses aqui mesmo.
- Os miúdos?
- Não te preocupes, estão bem. Mas não ponhas os miúdos na conversa. Aliás, não quero as conversas que temos, quero prazer. Conto contigo ou tenho de sair à rua?
- Estás parva, isso são modos de falar?
- Os meus modos são os de alguém farta de ser criada de toda a gente. Hoje, sou eu a ser servida. Ou me serves ou saio àquela porta.
Ele serve-se de um whisky, enquanto o cigarro preso nos dedos continua a queimar.
- Não te percebo. Que aconteceu?
- Não tens de perceber. Tens de me satisfazer, de me possuir. Nesta mesa, no sofá, ou até na cama, mas esta noite quero um homem e tu estás aqui.
- Aqui?
- Sim, aqui.
Pousa o copo no aparador e aproxima-se. Sem despir qualquer peça, desaperta a braguilha. Inclina-se ligeiramente e afasta a estreita tira de lingerie, insinuando-se nas suas coxas.
- Queres-me?
- Sim, aqui e agora.
Sem delongas, penetra-a e num ritmo impiedoso arranca-lhe sons guturais inauditos, acabando por derramar-se na sua humidade satisfeita.

QUE TEXTO QUER LER NA 1ª QUINZENA DE FEVEREIRO? JACK VETTRIANO - 5 QUADROS, 5 TEXTOS.
1º Quadro 1 (33%)
2º Quadro 0 (0%)
3º Quadro 1 (33%)
4º Quadro 0 (0%)
5º Quadro 1 (33%)

Votos apurados: 3


23.11.09

XIV Mostra de Arte de Professores e Educadores do Concelho de Sintra

A Galeria Municipal de Sintra promove regularmente a mostra de trabalhos de artistas locais, alguns deles ainda sem renome.
A exposição patente até dia 25 reúne trabalhos de mais de 40 professores, sobretudo na área da pintura. Com tanta diversidade – e sem um tema em comum – é possível observar as mais variadas técnicas – óleo, acrílico, colagem – e temas, desde as clássicas flores, até outros mais abstractos. Seja como for, foi uma agradável surpresa observar a qualidade técnica e conceptual de muitos dos trabalhos.

12.7.09

depois do dilúvio

Aproveitando uma inesperada folga, visitei a exposição Depois do Dilúvio de Gao Xingjian, patente no Museu de Arte Moderna de Sintra até ao dia 27 de Setembro.
Esta visita revelou-se uma autêntica surpresa. Primeiro, porque a sua obra pictórica, de uma aparente simplicidade técnica, é de uma enorme força evocativa e conceptual. O autor utiliza somente tinta-da-china sobre tela ou papel, explorando todas as potencialidades e intensidade do cinza[1].
Outra surpresa foi descobrir que afinal já tive contacto com a sua obra escrita. Gao Xingjian foi Prémio Nobel em 2000 e em 2003 a Companhia de Teatro de Sintra levou à cena a sua peça A Fuga, baseada nos acontecimentos de Tiananmen. É uma peça de grande intensidade dramática e que acompanha dois estudantes em fuga às autoridades.

-->[1] A temática do preto e branco e os cinzentos que os medeiam, recorda-me sempre um artigo técnico sobre uma máquina de impressão que mencionava que o olhar humano treinado só consegue distinguir 16 tons de cinzento, mas que uma boa máquina consegue produzir 256.

1.8.08

O Soalho de Vermeer

AArte da Pintura
O Concerto
ACarta
Nota: Durante décadas, os especialistas consideravam que Vermeer retratava nos seus quadros o seu estúdio de pintura. Afinal, o seu génio recorria apenas a dos mais velhos truques para obter uma correcta perfeição geométrica no seu soalho. Em pelo menos 18 dos seus quadros existem pequenos furos em que assentou um pequeno prego ou pionaise ao qual estava preso um fio, que era coberto com pó de giz, e que ao ser retesado deixava pequenas marcas que permitiam ao pintor a reprodução perfeita do soalho.

22.7.08

Reinventar Seurat

Dimanche Aprés-Midi à la Grande Jatte (original)

Topiaria em Columbus, USA

Cartaz do Musical Sunday in the Park with George

The Simpsons à la Grande Jatte

15.5.08

Vieira da Silva – Par elle Même

Não sei se aprecio a pintura de Vieira da Silva. Alguns dos seus quadros transmitem-me uma sensação lúgubre e outros de peso. São construções pesadas, como frequentemente são as bibliotecas que neles parecem emergir. Ou as cidades de betão pintado e sem plano de pormenor, ou de pormenores perdidos. Sinto falta da cor viva que me alegra a alma. É que a minha lama anda triste e talvez não haja agora nela espaço para tais traços, para tais perspectivas, tais pontos de fuga. Talvez não haja fuga possível!

Par Elle Même vislumbra a pessoas por trás dos quadros, por trás do ícone. É ter uma vontade imensa de pôr a chaleira a ferver e preparar um chá. Pôr o disco na vitrola e sentar num cadeirão largo com uma manta quente a proteger do frio. Sentar e saborear o silêncio da descoberta de um traço que procura o seu caminho numa tela. Perceber como por vezes se encontram, se cruzam e de repente ver que apenas estavam à espera de se cruzar e trazer à superfície da tela algo que estava lá há já muito, muito tempo. Apenas à espera que uma mão sacudisse a areia branca da tela. E tudo isto num simples golo de chá.

Dar vida a palavras que não são escritas para representação não é tarefa fácil. Há ritmos escritos difíceis de conciliar com a oralidade. São outros tempos, outras pausas, outra respiração. É necessário um empenho total nas palavras. Uma maior garimpagem de tonalidades. E Maria José Paschoal brinda-nos … com a sua versatilidade e as suas capacidades interpretativas. Como a própria afirma: é o papel de uma vida. Ou melhor, é uma vida que vai além do papel em que as palavras foram escritas.

14.9.07

A Tábua de Flandres, Arturo Perez-Reverte

Perez-Reverte é mais conhecido do público pelas adaptações ao cinema da grande maioria das suas obras, como as mais recentes O Capitão Alatriste, com Viggo Mortesen, e A Nona Porta, com Johnny Depp, e rodado parcilamente em Portugal. Menos conhecidas, são as adaptações, quer espanholas, quer americanas, de O Maestro de Esgrima, A Tábua de Flandres, Território comanche e o mais recente A Carta Esférica.

Na escrita de Perez-Reverte reúnem-se vários elementos como o thriller, a literatura e a arte. Em a Tábua junta-se a estes a lógica e a estratégia do xadrez. Tem como protagonista Júlia, uma jovem restauradora de arte cujo mais recente trabalho é restaurar A Partida de Xadrez do pintor flamengo Pieter van Huys. Ao tratar do quadro descobre nele uma inscrição que leva à investigação de um crime cometido cerca de 500 anos antes e envolvendo os protagonistas do quadro. Mas esta investigação não é impune, pois alguns implicados na investigação actual surgem mortos. É um enredo interessante que nos permite passear um pouco pelas obras dos mestres flamengos e também nos dá vontade de conhecer melhor o xadrez, o elemento fundamental na resolução de todos os crimes da trama.