Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois

Ler Ferreira de Castro 40 Anos Depois
Mais informações: www.cm-sintra.pt

31.3.11

"Para lá de todas as coisas amáveis,
para lá de todas as coisas desejáveis,
a tua nudez na ponta dos meus dedos,
uma bola de fumo pairando sobre o piano
e cada poro teu tocado como se fosse
uma tecla, uma tecla emitindo o som
de cordas surdas, as tuas veias, cada
um dos teus nervos, e eu enredado
em ti como o insecto na teia da aranha,
para lá de todas as coisas definíveis,
os contornos do teu corpo à luz
de um tecido transparente, beleza
incomparável acossada pela fealdade
das notas, dos acordes atonais, para
lá de ti, para lá de mim, a paixão
capturada pelas máquinas fotográficas,
projectada numa tela à velocidade
iludente do cinema, para lá das salas,
para lá da luz, nós os dois denegridos,
deitados no quarto escuro da paixão."

"A Dança das Feridas" - Henrique Manuel Bento Fialho

30.3.11

- Oféliaaaa?

Silêncio.

- Oféliaaaa?

Nenhum som ecoa nos seus ouvidos submersos. Na sua mente apenas as recordações dos beijos de Hamlet: cerejas roubadas das árvores no pico do verão. Mas Hamlet não volta e resta apenas a sumarenta e inebriante recordação. Para sempre.

29.3.11

sabedorias

As pessoas fracas nunca poêm fim a nada - ficam à espera desse fim.
Fernando Pinto do Amaral

27.3.11

Um poema por semana

A nova aposta da RTP na área da divulgação cultural é Um Poema por Semana. Este programa, idealizado por Paula Moura Pinheiro, assinala o retorno à televisão de um programa de poesia. Neste formato, um poema é interpretado e/ou declamado por cinco pessoas diferentes, sejam elas desconhecidos do público ou gente de renome, ao longo da semana. O programa é emitido três vezes ao dia na RTP2.

26.3.11

Diálogo internaútico

- vi um poema tão bonito na net, mas não fixei o site e agora não consigo encontrar.
- quem é o autor?
- não conheço e também não fixei o nome.
- e era sobre o quê?
- sobre amor e sexo. Já pesquisei com algumas palavra e nada.
- amor e sexo, dizes tu? Pesquisa por “pernas”.
- oh, olha é este. Como é que adivinhaste?
- bem, normalmente quer um quer outro acabam com alguém a abrir a pernas.

24.3.11

22.3.11

O Rapaz do Pijama às Riscas

O Rapaz do Pijama às Riscas relata a improvável amizade entre Shmuel, uma criança judia presa num campo de concentração, e Bruno, filho do oficial nazi que dirige esse mesmo campo. Claro que esta amizade não é promovida, mas a curiosidade infantil tudo permite.
Toda a história nos é dada pela perspectiva de Bruno, para quem o pai – como para todas as crianças – é um deus, modelo de força e carácter. Quando este é promovido, a família muda-se para a periferia de um campo de concentração, situação sempre camuflada a Bruno. Mas a sua curiosidade e capacidade de observação infantis não podem ser menosprezadas e levam-no a gradualmente desvendar os segredos que lhe são escondidos. Drasticamente, Bruno constata que o pai não é pai-herói e, num desfecho trágico, compreende quase todos os horrores do regime nazi.
Baseado no livro de John Boyne, que desconheço, esta história parece-me cruzar o relato infantil de Harper Lee em Não Matem a Cotovia e a capacidade de uma perspectiva diferente sobre o genocídio nazi de A Vida é Bela de Roberto Benigni. É uma história sensível sobre relações familiares, valores, aceitação, consciência. O facto de a história ser vivida por uma criança, recorda-nos que as construções sociais de valores são fúteis e muitos deles enviesados, esquecendo o nosso próprio carácter humano.
Uma história a ver ou a ler.

20.3.11

Colecção Frente-e-Verso

A segunda edição da colecção Frente-e-Verso, Publicada pela Visão, foi uma nova oportunidade de ampliar o meu leque de leituras de autores de expressão portuguesa. Nesta edição, os que me suscitam maior curiosidade eram José Mário Silva e ana Paula Tavares. No entanto, todos os outros eram lacunas a colmatar. Foram um novo aprendizado, pelas suas várias formas de escrita, quer em termos formais, quer em termos temáticos. Uma nova leitura, para novas (re)escritas.

19.3.11

Ler #100

A revista LER assinala este mês a sua centésima edição. Não acompanhei os cem números mas possuo os primeiros quatro e muitos outros. Grande parte da minha formação literária ocorreu nas suas páginas. Se na licenciatura aprendi o cânone literário, com a Ler aprendi para além do cânone. É-me difícil elencar, por exemplo, que autores comecei a ler por causa da LER. Mas sem sombra de dúvida que aprendi muito nas suas páginas rigorosas, leves mas não superficiais, belas, mas não ofuscantes. A toda(s) a(s) esquipa(s) da LER o meu muito sentido obrigado e votos para mais, muitos mais números.

18.3.11

Dizes-me coisas amargas como os frutos, Ana Paula Tavares

A minha curiosidade sobre o trabalho de Ana Paula Tavares advém do poema citado por Mia Couto em O Outro Pé da Sereia. Angolana, historiadora e antropóloga, Ana Paula reflecte esta três condições no seu trabalho. O seu sujeito poético é um sujeito feminino que canta o amado ausente, seja pela guerra, seja pelo seu papel latente nas sociedades primitivas africanas. Os temas recorrentes são os vários papéis familiares da mulher, bem como os seus papéis sociais, associados ao trabalho da terra ao pastoreio, à olaria e ao tear.
Tecidos
...

17.3.11

Luz Indecisa, José Mário silva

Os poemas que compõem Luz Indecisa apresentam-se em 3 actos: anos 80, geografia humana e néon, negrume. Os Anos 80 são um registo poético da infância e adolescência do sujeito poético, com uma grande predominância da memória afectiva de espaços (casas familiares, escola, férias) e experiências modificadoras (a descoberta do desejo). Em geografia humana, temos novamente o registo dos afectos ligados a espaços vivenciados, mas sob a batuta da maturidade e da idade adulta. Já néon, negrume é o exacto espaço dessa luz indecisa onde se resgata a memória numa penumbra que impossibilita uma visão nítida de passado, presente e futuro.


Terra incógnita
A partir daqui,
Não sabemos nada.

16.3.11

O efeito borboleta e outras histórias, José Mário Silva

«O certo é que o escritor de brevidades o que mais deseja é escrever interminavelmente textos longos, textos longos em que a imaginação não tenha de trabalhar, em que factos, coisas, animais e homens se cruzem, se procurem ou fujam uns dos outros, vivam, convivam, se amem ou façam derramar livremente o seu sangue sem estarem sujeitos ao ponto e vírgula, ao ponto.»
Augusto Monterroso

De José Mário Silva conheço o seu registo como jornalista e critico literário, através do blog Bibliotecário de Babel e da revista LER. Enquanto escritor, esta é a minha primeira incursão no seu trabalho. Este volume reúne pequenos contos já editados no DNa e que, para a presente edição, foram revistos e editados.
Os pequenos contos estão perfeitamente enquadrados pela citação de Augusto Monterroso, acima transcrita. A brevidade dos mesmos não lhes retira impacto, pelo contrário: potencia-o. São como que balas de borracha, que embora pequenas, desarmam o leitor e cuja mossa e dor fantasma permanece indelével.
José Mário Silva apresenta-nos retratos de personagens que somos todos nós, nas nossas vidas mundanas, e através de uma extraordinária capacidade de síntese explora medos, (des)inquietações, aspirações e constatações. A sua capacidade de síntese culmina nas 38 miniatura finais, que podem perfeitamente ser provérbios modernos ou haikus ocidentais.


Caixa negra
No rescaldo de cada relação falhada, lia de novo todos os e-mails e SMS, à procura do erro humano.

Fatalidade
O rosto que mereces está sempre noutro espelho.

Noções de geometria afectiva
Os triângulos amorosos nunca são equiláteros.

O quadro que Vermeer não pintou
Um xadrezista na penumbra, mão no ar, ponderando o gambito.

15.3.11

Eros de Passagem, (org.) Eugénio de Andrade


A colectânea de poesia erótica contemporânea Eros de Passagem é a segunda edição revista da colectânea Variações de um corpo. Nessa primeira edição, de 1987, cada um dos poemas seleccionados dava corpo a um desenho do escultor José Rodrigues. Em 1997, Eugénio de Andrade, responsável pela selecção, decidiu alterar os critérios de selecção, deixando os poemas, por exemplo, de acompanhar ilustrações, e, deste modo, dar conta de alterações entretanto ocorridas na produção poética nacional, nomeadamente no modo como esta dá corpo o erotismo.
A obra reúne poemas de 58 autores, em que o erotismo que se apresenta como forma de expressão física do sentimento amoroso, registando o corpo e as suas pulsões.


Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

14.3.11

A menina de tranças azuis

Ao final do dia, no seu regresso da escola, a menina de tranças azuis saltita pelo carreiro de pedras, balançado a mala que carrega os livros e os cadernos onde todos os dias aprende coisas novas.
É uma Mónica que causa grande espanto e que se espanta todos os dias com as muitas maravilhas que encontra no caminho. Quantas vezes a mãe lhe diz:

- onde andaste, minha marota? Não sabes que me enches de preocupação quando demoras a chegar?

Mas a menina abana a cabeça gentilmente, sorrindo com os olhos e diz:

- ó mãe, não te preocupes, estive a seguir um carreiro de formigas e a ver o que levavam para o seu armazém. Sabes, acho que são os animais mais fortes do mundo.

Ou então:

- não foi nada mãe, estive a conversar com o senhor burro, aquele ali da quinta do vizinho Ramiro.

Inevitavelmente, o comentário da mãe era sempre:

- que hei-de fazer contigo, rapariga endiabrada’

Mas a menina não é endiabrada, é apenas curiosa. Gosta de aprender e que melhor maneira de aprender do que conversando com as formigas, os burros, os cães, os pássaros, e todos os outros animais que encontra no caminho? Aprender na escola a vida dos reis era divertido, mas aprender a caminho de casa é também muito divertido.

Por exemplo, com o senhor burro aprendeu que na verdade este não é teimoso. As pessoas é que estão sempre cheias de pressa e atrasadas e ele, como já não está para novo, já lhe custa muito dar passadas apressadas. Se as pessoas saíssem mais cedo de casa, já não havia este problema. Porque é que haveria ele de ser o culpado das pessoas não chegarem a horas?

A menina de tranças azuis gosta de aprender assim o que, talvez por falta desse tempo, a professora Alice não lhe consegue ensinar. Porque todos nós temos as nossas lições a aprender, mas também a ensinar.

13.3.11

Google Reader

Há aproximadamente um ano, comecei a utilizar o Google Reader, uma ferramenta que permite ler as actualizações dos blogs subscritos, sem fazer um périplo página a página. Quando se segue muitos blogs (actualmente são 291) uma ferramenta deste tipo torna-se indispensável. Mudou o modo como consulto a blogosfera (não recordo o aspecto de 90% dos blogs consultados), mas é a primeira página a que acedo diariamente. Permite-me guardar os posts que quero ler mais tarde, ou simplesmente me suscitam interesse para uma futura reflexão. Permite-me partilhar os posts, por e-mail, através da minha conta ou inserir outros contactos. Entre outras possibilidades. E, claro, de tempos a tempos convém fazer uma limpeza ao blogs que por algum motivo deixaram de publicar.

Se podia viver sem o Google Reader? Podia, mas não era a mesma coisa.

12.3.11

A história de uma tragédia



A Grande Onda, Hokusay

A Rosa de Hiroshima
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

Vinícius de Moraes

11.3.11

As listas

Ultimamente, tornei-me exímia em elaborar listas por tudo e por nada. Hoje, percebi porquê: é a tentativa de ordenar o caos que se tornou a minha vida.

9.3.11

VOLTA AO MUNDO

I.

Voltemos a isto, à contagem dos erros
na soma do mundo, à impotência do riso
contra tudo o que não sabemos mudar:
a morte, o egoísmo, o levadiço coração
humano. Porque não há mais nada (ok,
há o amor - vai-te foder) e no mercado
do juízo a catequese está em alta.
Regressemos à toada desta fábrica de luz
defeituosa, intermitente como a vida.
Se não há melhor emprego para a culpa
e os domingos custam dias a passar

José Miguel Silva
Erros individuais, Relógio d´Água, Novembro de 2010
Kerstin Zu Pan

7.3.11

as lições tardias

Todos os erros deviam ser cometidos até aos 20 e resolvidos até aos 25.
Aos 35, estou a aprender todos os erros e ainda não fui capaz de resolver nenhum.

6.3.11

num mundo paralelo
não sou um reflexo de mim
nem sequer sou, seguindo direcções opostas
sou outra pessoa
que se vislumbra
mas não se reconhece

5.3.11

Copa de Literatura Brasileira

O Brasil pauta-se por várias iniciativas literárias das quais talvez a mais conhecida seja o FLIP – Festival Literário Internacional de Paraty, o qual veremos, em principio, “copiado” em Novembro em Sintra. Outra iniciativa com que deparei é a Copa de Literatura Brasileira. Nesta, 16 obras disputam-se (tal como nos quartos de final de um campeonato do mundo) até ser encontrado um vencedor final.
Ao pesquisar os livros em disputa nas várias edições, e confrontado com os disponíveis no catálogo das BLX, cheguei ao interessante número de 30 títulos, cujos autores praticamente desconheço. Assim, proponho-me a um novo desafio: incluir a leitura dos mesmos na minha lista de realizações a atingir até Janeiro de 2013.

4.3.11

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

3.3.11

Produto interno lírico, José Jorge Letria

Este volume não é uma ars poetica do autor, mas é um registo da poesia quer como produto final, quer como veículo da expressão lírica do autor. Se o seu título é um piscar de olho à expressão puramente economicista de Produto Interno Bruto, no entanto, o seu significado não podia ser mais oposto, pois o produto interno lírico é a representação do mais íntimo de um individuo.

A confissão do duplo
...
Multipliquei‑me em tantas páginas

que tudo dizendo a meu respeito
nada dizem sobre mim, fingidas e densas
como os livros da loucura da infância.
...

2.3.11

Ulisses e a ilha desconhecida

Os seus homens necessitavam de água potável, por isso, ao aportar na ilha desconhecida, seguiu rapidamente por uma vereda por onde vertia uma plácida corrente de água. A vegetação era frondosa, mas não densa, o que permitiu a que rapidamente chegasse ao seu destino. Qual foi o seu espanto ao constatar que a fonte que dava origem ao ribeiro estava ornada por uma construção em pedra.
Ainda no barco, Ulisses não conseguira ver qualquer construção, nem observou nenhum sinal – como, por exemplo, fumo – que lhe indicasse qualquer presença humana. Também nenhum dos sons que ouvira lhe indicava que a ilha fosse habitada, daí ter presumido que era deserta.
Agora, chegado à fonte de água, as suas convicções esvaíam-se. Se a ilha não era habitada, pelo menos já o fora e talvez fosse visitada por alguém. Alguém que lhes pudesse explicar ao certo onde estava e quão distantes estavam de Ítaca.
Os seus homens rapidamente encheram os alforges de água e retomaram o caminho de regresso. Saciada a sede da população, Ulisses formou três grupos para procurarem possíveis habitantes. Um seguiria pela orla marítima em busca de uma aldeia de pescadores. O segundo avançou pelo caminho do ribeiro para ver as suas imediações. Se a ilha fosse habitada por homens, estes necessitariam de água. O terceiro grupo seguiria pelas escarpas a leste, que, apesar da sua aparente inospitalidade, poderiam albergar gentes desconhecidas.
Ulisses permaneceu junto ao navio a analisar o desenho que rapidamente fizera da construção. Os motivos eram-lhe desconhecidos. Não se pareciam em nada com os da sua Ítaca natal, nem com outros que conhecera nas suas viagens. Quem seriam os seus autores? Homens, estranhas criaturas ou os enigmáticos deuses.

1.3.11

Tais pais, tais filhos #2

When Corpse Bride meets Confort's Rag Family...
that's Brandon Maldonado!


 
Brandon Maldonado